Crime Organizado

Estava conversando comentando uma notícia de crime organizado com postos de combustíveis, políticos, milícia, polícia federal… e a pessoa que estava ao meu lado não estava entendendo nada porque a imagem que ela associava quando ouvia falar em crime organizado no Rio de Janeiro é fuzil, guerra, favela, tráfico… 

Se você também não entende a conexão entre tudo isso, fique nessa posição comigo que vou te explicar enquanto a gente fortalece o abdômen.

Imagine que você tenha uma barraquinha de cachorro-quente. Daí, você vende 20 cachorros-quentes por dia. Cada um custa 10 reais. No fim do dia, você faturou… 20 vezes 10… R$ 200. Confere? Até aqui, tudo certo. Agora imagine que uma pessoa apareça com 100 reais em dinheiro vivo que conseguiu de forma ilícita: roubando ou vendendo algum produto proibido. Daí a pessoa pede

‘Coloca esse dinheiro junto do seu caixa e diz que você vendeu mais dez cachorros-quentes.’

Percebem o que aconteceu? Na realidade, você vendeu vinte. No papel, você diz que vendeu trinta.

Aqueles 100 reais que vieram de uma origem ilegal passaram a parecer resultado da venda de comida. Isso é uma forma simplificada de lavagem de dinheiro.

Agora vamos aumentar um pouquinho. Em vez de uma barraquinha, pensem em um restaurante. Ele recebe centenas de clientes por dia. Quem vai conseguir provar se, naquela terça-feira, entraram 287 clientes ou 314? 

Já ficou mais difícil, confere?

Agora aumentem de novo. Pensem em um supermercado. São milhares de produtos. Centenas de pagamentos. Dezenas de fornecedores. Milhares de notas fiscais. Quanto maior o negócio, mais difícil é enxergar uma pequena fraude no meio de tantas operações.

Agora chegamos ao posto de combustível. Um único posto pode vender dezenas de milhares de litros por mês. Recebe dinheiro em espécie, Pix, cartão.

Compra combustível, vende combustível, paga fornecedores e funcionários e emite milhares de notas fiscais.

É um negócio ideal para quem é corrupto e precisa misturar dinheiro verdadeiro com dinheiro de origem criminosa.

Mas o crime organizado não parou por aí porque a ganância, minha gente, ela é infinita para muita gente que raciocina nessa linha:

Se eu já tenho um posto, por que apenas esconder dinheiro? Por que não ganhar ainda mais dinheiro?

Então começam outros crimes. Declaram vender mais combustível do que venderam. 

Ou menos, para pagar menos imposto. 

Adulteram combustível. Criam empresas de fachada. Abrem transportadoras que existem apenas no papel. Colocam ‘laranjas’ como proprietários. O dinheiro passa por cinco ou seis empresas diferentes. Quando chega ao destino final, parece completamente limpo.

Agora vem a pergunta mais importante. Se estamos falando de milhões de reais, quem fiscaliza tudo isso?

Receita. Polícia. Ministério Público. Secretarias de Fazenda. Agência Nacional do Petróleo, a ANP… Cada uma dessas instituições pode interromper esse esquema. 

E é justamente por isso que organizações criminosas passam a ter interesse em influenciar quem fiscaliza esses negócios porque, por exemplo:

um fiscal honesto pode fechar um posto, um delegado pode abrir um inquérito, um promotor pode denunciar e um agente da Receita pode descobrir uma fraude.

É nesse momento que o crime organizado deixa de ser apenas um problema de polícia e passa a buscar influência sobre o Estado.

Em alguns casos investigados pela Justiça brasileira, isso ocorre por meio de corrupção, compra de proteção, financiamento ilícito de campanhas, indicação de pessoas para cargos estratégicos ou outras formas de captura das instituições públicas.

Entendem que quando conseguem corromper agentes públicos ou influenciar decisões do Estado, tornam muito mais difícil que todo esse esquema seja descoberto?

É por isso que hoje o crime organizado não pode ser entendido apenas olhando para um homem armado com um fuzil. Muitas vezes, o verdadeiro poder está em quem controla o caixa, o CNPJ, a bomba de combustível e tenta fazer com que ninguém fiscalize o que acontece ali.

Além disso, a alta circulação de dinheiro, a complexidade tributária e a possibilidade de fraudes tornam o setor especialmente atraente para organizações criminosas.

Não sem motivo, nos últimos meses foram presos muitos políticos, um desembargador federal, um delegado da PF, empresários, policiais e bicheiros. Tudo faz parte de uma mudança na estratégia de combate ao crime organizado.

O fuzil continua existindo. Só deixou de ser o centro do negócio. O verdadeiro poder está no fluxo do dinheiro.

Em abril de 2025, o STF mudou essa lógica ao julgar a ADPF 635. Além de discutir as operações policiais, o Supremo determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente para identificar como é que funcionam as organizações criminosas no Rio, quem manda, quem financia, quem protege e como o dinheiro circula. Também determinou prioridade máxima para as informações do COAF, da Receita Federal e da Fazenda Estadual. 

Aí invés de correr só atrás do criminoso armado, o foco, agora,  passou a cair também em desmontar toda a engrenagem que mantém o crime organizado funcionando. 

Pela primeira vez em muito tempo as investigações parecem atacar os três pilares do crime organizado de uma só vez: o braço armado (facções e milícias), o braço econômico (combustíveis, contrabando, lavagem de dinheiro, jogo do bicho) e o braço institucional (agentes públicos, autoridades e políticos) que segundo as investigações garantiriam proteção e informação aos esquemas. 

Para resolver o problema do Rio de Janeiro, as forças investigativas não podem estar todas aqui, entende? Tem que vir mesmo gente de fora para investigar conduzida pela Polícia Federal.

Espero ter ajudado.

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