Linha direta Lula e Trump

O telefone tocou no Planalto.

Do outro lado, Donald Trump — o homem das fake news em escala industrial, o bilionário que construiu muros, gritou contra imigrantes e transformou o “América primeiro” em um grito de isolamento e fez da raiva um intrumento de política pública.

O operário que virou presidente, o homem das pontes, dos abraços e do diálogo, atendeu.

De repente, não mais que de repente, o americano que queria isolar o mundo estava batendo papo com o brasileiro que insiste em diálogos. E o improvável virou protocolo.

Não falaram sobre Bolsonaro, tornozeleira eletrônica e nem Anistia. Conversaram sobre uma coisa mais urgente que diz respeito às duas nações: economia.

Trump queria falar de comércio. Parece que as coisas não andam tão bem por lá e bateu desespero. Lula foi sincero e, na minha cabeça, ele respondeu cantando à La Chico: “Pois é, companheiro Trump. Muita careta pra engolir a transação e a gente tá engolindo cada sapo no caminho e a gente vai se amando que também sem um carinho. Ninguém segura esse rojão.”

Daí, a seguir, Lula aproveitou para lembrar que o Brasil é um dos três países do G20 com quem os Estados Unidos mantêm superávit na balança de bens e serviços e para pedir o fim da sobretaxa de 40% que sufoca os produtos brasileiros. Dito em bom português, negociou o tarifaço.

Dois homens que simbolizam lados opostos do planeta político conseguiram, enfim, dialogar como Lula sempre afirmou ser necessário. Não para concordar — mas para negociar.  Eram dois modos de ver o planeta dividindo a mesma linha telefônica. O que governa pelo medo ouviu quem insiste em governar pela esperança.

Lula não abaixou a cabeça mantendo a sua tradição de mostrar que somos soberanos.

Nesta ligação como em todos os outros diálogos com diversos presidentes, o complexo de viralatas não teve vez. Pelo contrário, nosso Caramelo mostrou para a águia como se voa.

A conversa foi amistosa, com ambos relembrando a boa química de encontros anteriores. O contato é visto como um passo para restaurar as relações históricas entre os dois países.

Linha direta agora, meu povo. Eduardo Bolsonaro perdeu. Não adiantou trabalhar contra o Brasil e espalhar mentiras. Daqui a pouco, teremos encontro pessoal em breve para acertarem o fim do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras.

Deve ser muito difícil odiar Lula, viu.

Texto de Elika Takimoto