
Morei por 45 anos na mesma rua em Madureira. Sempre em uma casa. Primeiro na casa de mamãe e de papai – que é uma casa virada para a rua – e, depois, em uma vila. Há cinco anos, moro no Catete em um apartamento alugado, de fundo e sem varanda.
Sinto falta de ver coisas. Tenho reclamado para Pipo que, no nosso próximo cantinho, tem que ter uma varanda com uma vista para seja lá o que for mas que não sejam somente essas janelas de outros apartamentos que sequer ficam abertas para eu me distrair com a vida alheia.
Pipo diz que é besteira. Para provar que está certíssimo, Pipo observa todos os dias pela janelinha da área de serviço as varandas – sempre vazias – do prédio ali distante. Outro dia, veio me dizer que viu, de fato, gente na varanda: uma pessoa varrendo, um pintor e um bolsonarista gritando algo segurando a bandeira do Brasil em pleno 7 de setembro. Ou seja: varanda só serve para dar trabalho. Ninguém usa. Diz Pipo em um esforço inútil para me deixar menos desolada.
Sigo ávida para olhar alguma coisa e fico sonhando com um apartamento com varanda, ou, vá lá, com uma janela interessante. Veria do alto, o pátio de uma escola com as crianças pulando corda na hora do recreio, jogando amarelinha, brincando de pique. Observaria o jardim de um palácio com as maritacas fazendo algazarra por conta do casamento do João de Barro com a Maria de barro. Contemplaria atenta a assembleia dos gatos rebeldes em cima dos telhados. Testemunharia um assalto em uma avenida movimentada e gritaria lá de cima attenzione pickpocket. Assistiria um dramático pôr do Sol e meditaria sobre como nosso planeta gira rápido e não sentimos nada. Lembraria de Galileu todo dia.
Lá de longe, miraria a chuva chegando como quem vem com uma grande novidade e o vento bagunçando as copas das palmeiras que passaram o dia se penteando. Presenciaria um resgate com um helicóptero de uma pessoa se afogando no mar e assim que o bombeiro a salvasse, eu enxergaria uma baleia dando um salto bem mais ali para o horizonte.
Contaria a frequência com que os aviões passam por aquela rota ali no ar. Tentaria estimar a velocidade da aeronaves fazendo uma regra de três. Sou boa em conta e me distraio calculando como quem faz palavras cruzadas. Vibraria ao ver o show da esquadrilha da fumaça da varanda.
Plantaria flores em vasos bonitos e esperaria a visita dos beija-flores e das lagartas. Eles viriam aos montes e elas me chateariam um pouco. Avistaria uma colisão entre dois carros com ninguém se ferindo. Olharia os motoristas discutindo e, depois, eles se esbofeteando. Chamaria Yuki para ver e contemplaríamos blocos de Carnaval, crianças saltitantes voltando da escola, a ciclovia movimentada, pessoas conversando em libras, um circo sendo erguido, peteca histérica sendo arremessada entre amigos, partidas de futebol feminino e frescobol praticado por cadeirantes.
Observaria a tormenta e a calmaria habitando a mesma tarde e as manhãs cheias de segredinhos. Veria uma senhora de mais ou menos setenta anos patinando todo dia pelas manhãs e uma mãe chegando da maternidade.
Diferenciaria o azul, o cinza, o branco e o vermelho quando olhasse e visse.
Espiaria gente se exercitando e pessoas paradas como eu olhando o que tivesse para ser visto. Mas, meudeus, como teria coisas de lá de fora para entrar na minha cabeça. Teria todo dia elementos para uma crônica. Escrever é muito mais fácil para quem tem paisagens. O quanto perderia a literatura se todas as pessoas que escrevem vivessem em apartamentos sem varandas com vizinhos silenciosos e reservados como os meus?
Poderia ser que a minha vista fosse ofuscada pelos galhos de uma árvore bem alta. Poderia. Ainda assim, observaria as estações passando, ninhos sendo construídos, morcegos dormindo de cabeça para baixo, flores se abrindo e pegaria uma fruta madura esticando a mão. Veria uma fruta crescer e protegeria, com alguma gambiarra, minha manga dos passarinhos. Daria água para o moço amarrado por uma corda enquanto ele podasse os galhos mais fofoqueiros que estivessem invadindo a minha sala.
Para convencer Pipo de que meu desejo procede e que estou certa, resolvi registrar tudo o que estamos perdendo.