Vento de través

Há anos sonho em aprender a velejar. Algo me impedia: minha surdez. Só ouço bem com meus aparelhos auditivos e não poderia arriscar perdê-los no mar.

Minha agenda nunca coincidia com a de algum filho. Fora isso, o curso não é de um dia. No mínimo, dez horas para aprender o básico. Impossível conciliar nossos horários.

Sozinha não tinha como.

Não poderia contar com ajuda de mais ninguém que não fosse uma pessoa muito próxima que soubesse se comunicar comigo quando estou sem meus aparelhos.

Precisava de alguém que repassasse imediatamente a orientação do professor.

Nesse recesso de Janeiro, depois de anos, consegui que Pipo me acompanhasse e fosse, para além do meu amor, meus ouvidos.

Não foi fácil para ele. É muita informação. Pipo tinha que assimilar o comando e, antes de agir, transmitir para mim o que entendeu.

E estávamos falando um idioma novo: orçar, arribar, bombordo, boreste, bolina, leme, retranca, quilha, casco, vela… por vezes, eu entendia mas não me lembrava do que se tratava.

E tem mais:

Entre o que um professor fala e o que uma pessoa entende há um espaço que se assemelha a um tipo de abismo.

Entre o que uma pessoa entende e o que ela propaga logo depois para uma outra, há uma espécie de tradução onde deveria haver somente uma transmissão.

Mais um detalhe: em uma situação que temos que pensar, nem sempre conseguimos falar.

Ou seja, a função do Pipo não foi nada simples.

Erramos muito em vários momentos.

Chegamos a virar o barco e cair no mar. Nessa hora, era o homem gritando de um lado, o Pipo do outro e eu surdinha sem entender patavinas mas achando lindo ficar desesperada vendo o Pão de Acúcar.

Ao menos isso, pensei.

Se for para ficar perdida, abalada e confusa, que seja dentro de um Cartão Postal.

Conseguimos, com orientação e vontade de viver, desvirar o dingue.

Achei um luxo subir no barco no meio do mar sem ajuda de ninguém. Logo depois de ter feito tanta coisa errada, estava feliz porque meus bíceps responderam ao meu comando. Acho chique ter autonomia.

Enfim, ainda estou aprendendo e tentando compreender com meu corpo a lidar com o vento soprando em várias direções.

Essas são imagens da nossa primeira aula.

Minha intenção é conseguir autorização da Marinha para velejar sozinha. Para isso, há um chão a percorrer. Ou melhor, um mar a navegar.

Velejar contra o vento, coisa que a princípio, parece impossível, me fez compreender outras coisas como aqueles que têm epifanias. Para navegar em direção oposta ao vento, a trajetória em linha reta não é a solução. O zigue-zague com paciência é a chave. E vento em popa não é grandiscoisa. O melhor é vento de través.

Estou levando esses aprendizados para terra firme.

Viagem no tempo e no sofá

Estou de férias. Não viajei porque estava com saudade de ficar na minha casa lendo e na expectativa de voltar a escrever alguma coisa.

Depois que virei deputada, meu tempo ficou muito escasso. Talvez não pareça, mas levo horas escrevendo um texto que é lido em três minutos.

O fato é que hoje acordei e deitei no sofá. Estava abrindo o livro da Andréa Pachá quando me assustei ao ver que havia uma nave esquisita no meio da sala.

Era algo grande, parecia feito de um metal que tinha o tom dourado. Havia uma porta e sou dessas de entrar para ver qual é.

Infiltrei-me com as pupilas dilatadas porque estava tudo bem escuro.

Sentei-me na única cadeira que ali estava super acolchoada e me pedindo para me acomodar como um garçom na porta de um restaurante vazio faz apontando o cardápio para as pessoas que andam nas calçadas.

Havia um cinto de segurança que usei por medo de sei lá meodeos… voar?, colidir?, acelerar até chegar a velocidade da luz?.

Ouvi, então, uma voz metalizada.

– Preparada?

Eu que nem café da manhã tinha tomado e muito menos me penteado ou me maquiado porque estou de férias e porque sim, enfim, comecei a me lembrar de tudo o que fiz na vida sem que tivesse me planejado para nada e de tanta coisa que deu errado por ter agido no impulso, enfim… respondi depois de tanto aprendizado:

– Sim!

Eu havia entrado na cápsula do tempo e fui parar no meu quarto em Madureira em 1988, há exatos 37 anos.

O barulho da minha chegada assustou eu mesma com 15 anos que estava sentada lendo “Sem Tesão não há Solução” de Roberto Freire.

Nos olhamos. Eu, 51, e eu, 15.

Depois de tudo explicado, tive um diálogo sem precedentes na minha vida. E tudo tinha que ser muito rápido porque eu não sabia que horas a cápsula iria partir e eu, 51, estava preocupada em colocar ração para minha gata.

– Meu pai tá vivo?

Eu, 15, tinha acabado de ver papai tendo um enfarto e ainda estava assustada.

– Sim. 85 anos com Alzheimer, mas está tudo bem.

– Eu vou casar e ser feliz?

– Mas, menina, você já tá decidida que não vai casar virgem, já decidiu que nenhum homem vai mudar o seu sobrenome, quer fazer faculdade de física, já implica com a música Minha Namorada de Vinícius… E ainda está conectando sua felicidade a um casamento?

– Eu vou casar com o Nelson?

– Vai.

– Ah, que felicidade!

– Vai ter três filhos e o primeiro não será dele, mas ele lhe chamará de pai.

– Como?

– Não tenho tempo de explicar.

– Vou ser feliz para sempre?

– Com ele? Não. Mas terão 20 anos bem divertidos.

– Ele vai morrer?

– Não. Mas vocês vão se separar.

– Ele vai me deixar?

– Não. Você vai querer viver outras coisas.

– Eu? Você pode estar me confundindo!

– Tô nada.

– O Sarney vai ficar até quando? A carne vai voltar a ser vendida nos supermercados e açougues?

– Sarney vai ficar até acabar o mandato. O outro que vem a seguir que vai durar pouco. A carne vai voltar, mas você vai virar vegetariana algum dia.

– Eu? Nem pensar. Amo carne. E o nordeste? Vai ser sempre essa fome e seca?

– Não. Essa miséria que você vê todo dia no jornal e essa seca vão melhorar. Lula será eleito em 2003 e população mais pobre vai conseguir entrar nas Universidades…

– Ah, que lindo! Jura? Que beleza! Que futuro lindo! Vamos melhorar o mundo! Nem acredito!

– Eh… bem… você vai acompanhar uma série…

– Série de televisão? Odeio.

– Uma série de golpes que o Brasil vai levar.

– Golpe?

– Isso. Golpe.

– E não vai dar para evitar?

– Difícil. Haverá uma máquina potente endinheirada que vai querer o PT longe. E logo depois teremos o Didi Mocó como presidente, professores serão atacados, viveremos uma pandemia sem ministro da saúde, o fundamentalismo religioso vai vir forte, Lula vai voltar em 2022, mas teremos o 8 de Janeiro e o telefone fixo vai acabar.

– O quê? E como a gente vai se comunicar?

– Por celular. E falaremos pouco porque teremos whatsapp. Mandaremos áudio curtos se formos educados e a pessoa responde quando puder.

– Não é melhor ligar?

– Deus me livre. Não. Mensagens curtas e áudios breves. Vai ter chamada de vídeo também.

– Tipo os Jetsons?

– Sim. Tipo isso.

– Teremos carros voadores?

– Não. Teremos muito engarrafamentos.

– Vou me apaixonar de novo por uma outra pessoa?

– Vai. Mas vai muito. De perder a virgindade de novo. Mas isso depois que o Lula te ligar.

– O Lula vai me ligar?! Por quê?

– Porque você… ih! A máquina vai embora.

– Calma! Me dê uma dica boa! Um bom conselho! O que não devo fazer? O que devo evitar?

– Ultraprocessados e, por favor, não se apegue tanto ao Ayrton Senna e tome muito cuidado com o…

A cápsula acendeu e tive que entrar rapidamente nela.

– Com quem?

– Com o wurfrejfrjgbjkefbg…

Eu, 51, respondi, mas eu, 15, não entendi porque a cápsula fazia muito barulho e já estava ficando surda.

Fui direto para 2050.

A cápsula apareceu dentro de um quarto onde estava eu com 77 anos lendo Guta Jimenez, uma escritora lésbica e surda que ninguém ainda conhece.

Depois de tudo mais ou menos entendido e explicado sobre a minha cápsula do tempo, eu 51 olhou para eu 77:

– Com que idade você raspou a cabeça? Sempre quis fazer isso. Ficou ótimo!

– Há uns dez anos e gostei. Raspei por conta de uma promessa depois que minha neta foi internada.

– Neta? Filha de quem? Ela está bem?

– Está ótima. Yuki (43) quase enfartou quando soube do acidente.

– Filha do Yuki? Meu bebê será pai?

– Sim.

– E Nara? E Hideo? Pera. Meu deus… Minha mãe e meu pai…

– …

– Não quero ficar aqui não. Preciso voltar e dar ração para minha gata. Como está o Brasil? Resolvemos a emergência climática? Conseguiu virar vegana? Serei senadora? Quantos livros você já escreveu? As Escolas Públicas melhoraram? A violência nas comunidades acabou? Você ainda pedala e planta bananeira? Cadê seu celular?

– Aquilo não faz bem não. É tipo ultraprocessados. Deixamos de usar.

– E como se faz para se comunicar?

– Telefone fixo.

– Oi?A cápsula começou a piscar rápido. Entrei correndo e antes que a porta se fechasse, perguntei, eu 51, para mim, eu 77:

– O que você me aconselha? O que não posso deixar de fazer? Me fala algo importante!

– Musculação e não acredite no… rotuerjfgerufe

A porta se fechou no meio da frase e pá. Caí grazadeus na minha sala e vim correndo contar para vocês o que eu vivi.

Preciso voltar a escrever imediatamente para ocupar minha cabeça viu. Disseram que essa cápsula aparece quando estamos de preguiça no sofá.