Envelhecer ou El Niño?

Muitos vídeos estão aparecendo para mim de mulheres falando sobre o envelhecimento. Algumas filosofam, outras metem um papo reto, há quem diga que está tudo bem, tem as que falam sobre o inferno na terra que é a menopausa…  mas todas apontam que o mais difícil é lidar com a sociedade que nos olha como se o tempo tivesse passado somente para nós.

Fazemos parte da primeira geração da história que precisa focar no El Niño, mas que fica fazendo conteúdo sobre as mulheres envelhecendo.

Para essa galera que só posta fotos com filtros, envelhecer virou sinônimo de fracasso pessoal.

“Cara de cansada. Não se cuida. Tá largada. Bagulhou.”

Falam isso de uma mulher como se a terra girando fosse um problema de gestão individual e não um fenômeno que acontece para todas as pessoas.

Particularmente, estou de saco cheio como muitas mulheres da minha idade. Lá se foram 50 anos dizendo como devo me vestir e sentar. Não vou aceitar que os próximos 50 sejam assim.

Envelhecer naturalmente é considerado falta de disciplina apenas para mulheres, vale observar.

E trago verdades: por mais que você gaste dinheiro, o seu corpo vai mudar, o colágeno vai embora e você vai ter que fazer sim agachamentos e muitos exercícios físicos se quiser ter a perna forte, saúde em dia e zero dor quando chegar no climatério.

Se tudo correr bem na sua vida, você vai ver seu rosto criando rugas, sua bochecha caindo, seus cabelos mudando a textura e a cor e essa será a sua maior perspectiva de sucesso porque diferente disso é a morte precoce.

A publicidade vende produtos “anti-idade”. A medicina estética cresce.
As redes sociais filtram rostos. Mas ninguém vai conseguir interromper o tempo. Criamos um mercado gigantesco para combater algo inevitável.

A juventude feminina é algo maravilhoso, mas associar a maturidade e a velhice como sinônimos de perdas é algo cultural e perverso de nossa sociedade.

Talvez esses vídeos sobre envelhecimento estejam aparecendo porque o algoritmo percebeu minha idade. Mas eles também revelam outra coisa: existe uma geração inteira de mulheres chegando aos 50, aos 60 anos, que está sentindo necessidade de explicar o óbvio: envelhecemos.

Jovens, venho do futuro contar para vocês que seguimos nos divertindo, namorando, quem é de beber tá bebendo, quem é de dançar tá dando mortal, quem é de viajar tá pulando de paraquedas, e tem quem estava com a libido baixa achando que era menopausa e achou macho decente e tá metralhando óvulos por onde passa.

Há felicidade para quem prefere o absurdo de envelhecer se divertindo do que o absurdo de não envelhecer.

Aprender a desprezar o que não depende de nós é um tipo de liberdade que sugiro que pratiquem.



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