Não “lave as mãos”.

Nessa altura do campeonato, você já deve ter ouvido o caso da mulher que foi estuprada depois de ter sido deixada desacordada na calçada em frente a sua casa pelo motorista do aplicativo.

O tribunal da internet já apareceu e estou aqui lendo a quantidade de comentários dizendo que o “motorista não teve culpa”.

Muita gente que isenta de culpa e responsabilidade o motorista e o tal amigo (que colocou a moça até então acordada no carro) e o irmão (que dormiu porque estava medicado e não conseguiu ouvir a campainha) e o outro homem (que ajudou a tirar a moça do carro)… enfim, muita gente que fala que ninguém teve culpa nessa história – e tantas outras – certamente agiria da mesma forma.

“Já fiz a minha parte. Não é mais problema meu”.

Assim pensam.

É interessante a naturalidade com que as pessoas dizem que não têm culpa. Quando vemos crianças dormindo na rua, passamos direto porque “não temos culpa”. Quando vemos pessoas idosas com feridas abertas pelas calçadas, continuamos a andar porque não temos culpa. Quando vemos menores de idade trabalhando em sinais de trânsito debaixo do sol e de chuva, sequer abaixamos o vidro porque não temos culpa e, portanto, por essa lógica torta, também não temos a obrigação de ajudar, cuidar ou proteger.

Esse crime que poderia ter sido evitado em tantos momentos escancara o quanto esse mundo nos tornou perversos.

As primeiras perguntas que me faço diante dessa tragédia humana são:

O que custaria acompanhar essa mulher até um lugar seguro? Tempo? Dinheiro? Quanto? Quanto vale uma vida? O fato de nascermos em um mundo tão torto nos exime da responsabilidade de tentar consertá-lo? Não ter responsabilidade legal sobre alguém que está vulnerável é motivo suficiente para que eu não precise fazer nada para protegê-lo?

Abandonar uma mulher inconsciente na calçada de um país que tem quase um milhão de casos de estupro por ano, dois estupros por minuto, enfim, deixar uma moça desacordada na porta de casa é o bastante para dar uma corrida por encerrada?

O motorista lavou as mãos tal como Poncio Pilatos fez ao libertar o bandido Barrabás e entregar Cristo inocente para ser crucificado. Pilatos entrou para a história como o omisso covarde que ao ser colocado de frente a uma decisão importante faz o que é mais fácil ainda que sua atitude seja sem ética, sem moral e sem escrúpulos. O motorista lavou as mãos e há muitos homens as enxugando.

A moça, como tantas de nós, foi vista por quem por ali passou como algo público. Por estar na rua, muitos acham que uma mulher é de todos, assim como a calçada que pisam. A imagem da moça sendo carregada como se fosse um saco de batatas dói porque somos nós ali. Nós que até mesmo dentro de um hospital, lugar de cuidado e acolhimento, somos estupradas.

No conforto do sofá, estão dizendo que o motorista não teve culpa.

Sinto dizer mas não há ninguém blindado, imune ou isolado do mal que existe nessa bagaça. Se não contribuirmos para que tanta maldade e injustiça diminuam, seremos, de um jeito ou de outro, atingidos por elas.

Dizem que as desigualdades e injustiças que existem por aí “não são minha culpa” porque “quando nasci o mundo já era assim”. Ou seja, “não posso fazer nada”.

Claro que pode. Toda pessoa tem o potencial de mudar o mundo. Ao proteger um ser humano, o universo melhora como um todo. E nem é tão difícil assim alterar o infinito…

Que o estuprador seja preso e que o restante dos homens pare de lavar as mãos diante de escolhas como essas.