
É raro eu pedalar porque preciso de (e do) tempo. Tempo desses que contamos no relógio e tempo, também, que vemos nas nuvens ou na ausência delas. Coincidir esses dois conceitos é algo raro em minha vida.
Por vezes, há um sábado lindo pela frente cheio de nuvens e pouco vento. O tempo ideal para me levar para um passeio em duas rodas. Mas o trabalho me chama.
Ontem, os astros se alinharam. O céu e minha agenda estavam repletos de convite para um autocuidado.
Quando minhas mãos seguram o guidão, estão impossibilitadas de mexer em um celular. E mesmo que eu pedale com as mãos livres por quilômetros, preciso delas distantes uma da outra para que o equilíbrio se faça.
Evito, também, ouvir música. Para além de focar na paisagem – que é uma das mais lindas do mundo – concentro-me em mim mesma. Pensamentos vêm das mais remotas origens e eu que lide com eles enquanto pedalo. Conforme o corpo se mexe, tento aquietar essa cabeça.
Não há pressa. Não há meta. Há um sábado e uma necessidade de manter o equilíbrio e me levar para um passeio sem pisar o pé no freio e sem pensar no fim.
Gosto da imagem e da sensação de não conseguir estabilidade com a bicicleta parada. Somente no movimento, seu eixo tende a permanecer paralelo ao solo – e surpreendentemente nos coloca no centro por uma soma de fenômenos físicos e uma vontade perfumada e tensa de sair vagando por aí.
Não. Não me canso. Ontem fiquei quase cinco horas em cima da minha Taki-bike. Paro muito e ando devagar porque o Rio de Janeiro continua lindo e, assim como não me acostumo com nenhum tipo de violência, a beleza, por sorte, não me enjoa. Sigo perplexa ao ver gaivotas e urubus com o Corcovado, o Pão de Açúcar ou o Morro Dois Irmãos compondo o cenário. Deve ser como cumprimentar um neto. Sempre uma mistura de alegria com perplexidade por estar diante de algo tão bonito.
Quando pedalo, não há objetivo de queima de calorias ou fortalecimento muscular. Há um sábado apenas.
Ontem, ainda assim, bati um recorde de distância sem que me esforçasse para isso.Saí do Largo do Machado, dei a volta na Lagoa, fui ver o pessoal descendo ali de asa delta e parapente na praia de São Conrado.
Observando as pessoas voando enquanto eu pedalava pensei na física toda envolvida. Sou professora dessa disciplina e posso afirmar que tanto na asa delta quanto na bicicleta, o equilíbrio ocorre quando as leis de Newton adquirem autonomia e vão sozinhas para uma festa.
Pensando na explicação de tanta coisa e rindo sozinha, acabei indo até a Praia do Pepê na Barra.
Hoje é dia de feira, de arrumar a geladeira para a semana e de ver papai e mamãe. Ah claro, e dia de pular muita corda naquele quintal em Madureira porque aos Domingos, lesiono meus joelhos. Me machuco como acontece com quem brinca.
Um excelente Domingo e boa semana para vocês.