Linha direta Lula e Trump

O telefone tocou no Planalto.

Do outro lado, Donald Trump — o homem das fake news em escala industrial, o bilionário que construiu muros, gritou contra imigrantes e transformou o “América primeiro” em um grito de isolamento e fez da raiva um intrumento de política pública.

O operário que virou presidente, o homem das pontes, dos abraços e do diálogo, atendeu.

De repente, não mais que de repente, o americano que queria isolar o mundo estava batendo papo com o brasileiro que insiste em diálogos. E o improvável virou protocolo.

Não falaram sobre Bolsonaro, tornozeleira eletrônica e nem Anistia. Conversaram sobre uma coisa mais urgente que diz respeito às duas nações: economia.

Trump queria falar de comércio. Parece que as coisas não andam tão bem por lá e bateu desespero. Lula foi sincero e, na minha cabeça, ele respondeu cantando à La Chico: “Pois é, companheiro Trump. Muita careta pra engolir a transação e a gente tá engolindo cada sapo no caminho e a gente vai se amando que também sem um carinho. Ninguém segura esse rojão.”

Daí, a seguir, Lula aproveitou para lembrar que o Brasil é um dos três países do G20 com quem os Estados Unidos mantêm superávit na balança de bens e serviços e para pedir o fim da sobretaxa de 40% que sufoca os produtos brasileiros. Dito em bom português, negociou o tarifaço.

Dois homens que simbolizam lados opostos do planeta político conseguiram, enfim, dialogar como Lula sempre afirmou ser necessário. Não para concordar — mas para negociar.  Eram dois modos de ver o planeta dividindo a mesma linha telefônica. O que governa pelo medo ouviu quem insiste em governar pela esperança.

Lula não abaixou a cabeça mantendo a sua tradição de mostrar que somos soberanos.

Nesta ligação como em todos os outros diálogos com diversos presidentes, o complexo de viralatas não teve vez. Pelo contrário, nosso Caramelo mostrou para a águia como se voa.

A conversa foi amistosa, com ambos relembrando a boa química de encontros anteriores. O contato é visto como um passo para restaurar as relações históricas entre os dois países.

Linha direta agora, meu povo. Eduardo Bolsonaro perdeu. Não adiantou trabalhar contra o Brasil e espalhar mentiras. Daqui a pouco, teremos encontro pessoal em breve para acertarem o fim do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras.

Deve ser muito difícil odiar Lula, viu.

Texto de Elika Takimoto

O Caramelo e a Águia

Vamos ver se vocês conseguem identificar cada bicho dessa fábula que inventei para explicar para crianças um pouco sobre a nossa conjuntura. No final, quero que você me fale se concordou com a moral da história e se tiver outra melhor, só escrever nos comentários.

Era uma vez um reino gigante cheio de bichos diferentes. Esse reino havia sido governado por um Galo que, ao estar no poder, só melhorou a vida do seu galinheiro.

O pintinho pequenininho, deste tamaninho, filho do Galo, vivia ciscando e ameaçando o Vira Lata Caramelo – que sucedeu aquele Galo nesse imenso reino.

O pintinho não piava fazendo “piu piu” e sim “pai pai pai”.

O Caramelo não falava inglês e era incapaz de dizer “yes, sir!”. Porém, conversava com todos os bichos. Ele entendia os miados, respondia aos mugidos, respeitava os uivos, compreendia até os relinchos e os zurros. O Caramelo conhecia as ruas daquele reino como ninguém.

E o mais importante: o Caramelo farejava bem.

O Caramelo deu condições para que os Joões de Barro construíssem as suas casas, os Tatus, as suas tocas e as abelhas, as suas colméias. As cigarras cantavam, as vacas tinham pastos mais verdes e os pássaros voavam em um céu mais limpo depois que o Caramelo assumiu aquele reino.

Mas o Galo não se conformava com aquela alegria toda. Ele achava que iria reinar para sempre mesmo não respeitando as Corujas, os Pavões, as Cobras, as Capivaras e tantas outras espécies quando se viu Rei.

Inconformado, o Galo elaborou um plano para matar o Caramelo. O Corvo, quando descobriu a intenção do Galo, achou aquilo um absurdo. Com o poder a ele dado na ordem daquele reino, o Corvo não admitiu tamanha maldade.

O Corvo, então, começou a analisar o Galo bem de perto a ponto de limitar a hora do Galo voltar para o galinheiro. O Galo passou a ter um esporão.

O pintinho pequeninho resolveu pedir ajuda para uma Mosca da fruta que se vestia de Águia e reinava em um Império distante.

O pintinho falou para a Mosca: pai pai pai. E a Mosca entendeu que Corvo estava tirando a liberdade daquele reino, outrora governado pelo Galo.

A Mosca que vivia em outro reino cujos bichos que lá moravam precisavam comer coisas que não eram produzidas naquele lugar, ouvindo o pintinho pequenininho, tomou uma atitude:

“Avisa ao Corvo que se ele não deixar o Galo fazer o que bem entender, eu não vou querer mais nenhuma fruta do reino do Caramelo!”

 A bicharada do reino do Caramelo ficou tensa, as formigas e as abelhas que tanto trabalham começaram e pensar no que fariam da vida.

A bicharada do Reino da Águia também se desesperou porque gostava de comer o que as abelhas e formigas – do reino do Caramelo – produziam.

O Caramelo acalmou a bicharada e disse que até o gado iria continuar pastando naquele reino.

O Caramelo prometeu cuidar de todo mundo.

O pintinho, o nepo Galo, não satisfeito, pediu para a Mosca, então, derrubar uma árvore gigante onde moravam outros Corvos e que era fundamental para levar sombra e controlar a temperatura de todo o reino do Caramelo. 

A Mosca topou e mandou cortar a árvore.

O que a Mosca, o Pintinho e o Galo não contavam é que aquele tronco e as raízes das árvores do Reino do Caramelo eram muito sólidas e profundas.

Não seria qualquer serra.

E mais duas coisas surpreendentes aconteceram: As vacas, que conviviam bem com as galinhas do Galo, começaram a pastar longe daquele galinheiro. Outros galos começaram a refletir e passaram a educar melhor os seus pintinhos.

Moral da história: 

Nem todo gado aplaude quem lhe tira o pasto. Nem todo Caramelo tem Complexo de Vira Latas. Nem todo Galo que tem pintinho governa só para seu galinheiro.

Pari uma banda

Fui chamada a atenção aqui no privado por uma pessoa de bom coração. Ela disse que fica feio uma mulher como eu ficar falando que pariu uma banda. Falo sempre isso: “Pari uma banda”.

Digo com orgulho e mais um tanto de sentimentos que têm as pessoas cujo útero é uma espécie de camarim.

Pedi sugestões e ela: “fala que você deu a luz a uma banda e ainda pode brincar com esse negócio de luz no palco e bababá bububú.”

Daí, fiquei reflexiva. Nunca tinha pensado que essa palavra poderia gerar desconforto a ponto de sugerirem que eu parasse de usá-la.

Me ensaiei falando: “dar a luz a três artistas”…

Não…

Não traduz o que sinto quando falo “Pari uma banda”.

Comecei a refletir por que a pessoa achou feio, rude,  grosseiro e se sentiu desconfortável ouvindo uma pessoa que ela admira falando que pariu.

Há palavras mais elegantes, ela continuou: “dar à luz, gerar, trazer ao mundo… Parir, não. Parir parece coisa de bicho”.

Quando ela falou isso, gostei mais ainda. Gosto tanto de bichos que nem consigo comê-los. Não me acho melhor do que eles. Me comparar a uma vaca, para mim, é elogio.

Parir é forte. É verbo sem maquiagem. “Dar à luz” você imagina hospital, marido ao lado segurando a sua mão… epidural que é uma anestesia local para aliviar dor.

Parir, não. Parir é primitivo. Imagino uma mulher na beira do rio, ou no hospital sem celular para registrar,  parindo na cama que dorme, ouço o grito que dá a pessoa que põe gente no mundo, tem sangue, outra mulher ajudando,…  Parir é uma batalha vencida por dentro. Uma não, várias.

Parir, ainda que não seja sempre assim, parir é, talvez, o único ato em que uma pessoa sangra por amor e não porque foi ferida.

Quem sabe seja por isso que assuste tanto. Porque parir é verbo que exige coragem até para ser dito. É biológico, animal, é sangue com neném, é lambeção de cria logo depois.

Parir é poder demais para um verbo só. Ele não apenas nomeia um ato, ele entrega o protagonismo: quem pare, mete medo. Exige respeito.

Não existe parto sem que forças do além estejam envolvidas e só essa pessoa sabe o que passou quando pariu.

Dar a luz não. É coletivo. Todo mundo sabe como foi. Tem foto feita na hora que a luz foi dada. 

Mas olha… receba essa informação: Todo mundo foi parido –  ainda que isso seja esquisito aceitar. Vou te contar uma verdade: A sua mãe te pariu. E isso não é ofensa. Isso quer dizer que houve uma história para você ter vindo ao mundo. Houve um ovo em que você esteve dentro. Esse ovo foi protegido, aninhado, ou não. Mas todo mundo aqui esteve dentro de um ovo.

Peço perdão para quem se incomode, mas entre “dar à luz para três artistas” e “pari uma banda”, fico com a segunda porque nunca vi ninguém parir sem medo e, ao mesmo tempo, sem força. Nunca vi ninguém parir em silêncio.

E quando eu falo que foi um parto, saibam que no dia em que, individualmente, pari cada componente desta banda, fiz isso sem marido para segurar a minha mão, com um medo e uma ansiedade que jamais tive igual.

Mas ao mesmo tempo…

Mas ao mesmo tempo com a certeza de que o mundo seria melhor depois daquilo que estava passando e eu ia provar isso.

Se hoje vejo gente – muita gente e cada vez mais gente – se emocionando com Hideo, Nara e Yuki no palco foi porque eu pari essa banda.

Pari sim. Fui eu.

Esse sentimento ninguém vai me tirar.

Não há palavra que chegue mais perto disso do que o verbo que considero visceral: parir.

Estou reflexiva, mas seguirei do mesmo jeito me sentindo fêmea, rainha e mitológica.

Adianto: também sei rosnar e coçar a orelha com a pata de trás.

Pipo

Hoje, meu amor faz aniversário e consegui passar esse dia com ele.

Não preciso do Pipo para absolutamente nada, mas amo ter a presença dele em tudo.

A matemática da vida, vejam vocês, não tem a mesma lógica das quatro operações.

Eu, completa como um transatlântico e livre no mar, atraquei-me em um porto mesmo tendo feito qualquer âncora virar pó há tempos em minha vida.

Andando inteira pelo mundo, deparei-me com alguém que fez um quarto ser meu paraíso. Não me dividi, mas dupliquei-me e hoje, para sermos um, juntamos nossas quatro partes.

Pipo fez meu corpo entender para que servem os fogos de artifício nas festas de Réveillon.

Outro dia, estávamos conversando sobre como me incomoda usar o pronome possessivo para se referir a alguém com a qual convivemos.

Meu marido. Minha esposa. Minha mulher. Meu namorado… Sei lá. Parece marcação de território.

Relacionamento saudável não pode ter como símbolo um cadeado. Assim penso eu.

Daí, Pipo falou que se refere a mim sempre como “meu amor” porque, ainda que eu faça o que bem entender com a minha vida, ele seguirá me amando do mesmo jeito.

Portanto, o amor é dele e eu sou do mundo.

Ovulei no climatério quando ouvi isso.

Ok…

Mas, na conexão que foi feita e consolidada após o primeiro beijo, constatei uma forma de existir parecida com o que acontece quando decompomos a luz branca em um espectro de várias cores.

Isso posto e com a alma em festa:

Parabéns, meu amor. O que sinto por você é da mesma natureza do que sente a águia quando busca as alturas. Ela é livre, mas para viver sua essência, precisa estar no ar.

Sigo ao seu lado, presidente.

Presidente, todas as vezes que me encontro com você sinto um tipo de alegria ainda não nomeada.

Não é algo como ver um filho passar para uma universidade. Nem ganhar um carro em um sorteio. É uma coisa que tem a ver, de alguma forma, com o tempo.

Sensação boa que chega com imagens de tudo que já lhe vi passar, que vem com a riqueza do nosso presente e como se eu estivesse grávida de Brasis. Como lhe disse, não dá para nomear o que sequer tenho capacidade para explicar.

Hoje vi você na inauguração dos leitos do hospital de Bonsucesso. Ouvi – como quem vê boquiaberto o mar em silêncio – o seu discurso emocionado falando que quer ver os nossos Hospitais Federais sendo referência.

Eu estava na plateia que suava e sorria, como fazem aqueles que recebem um neto em casa.

Quando estive perto de você, percebi ainda nos seus olhos o reflexo do povo que ouviu o seu discurso. Você enxerga o Brasil, presidente. O tempo todo.

É impressionante testemunhar o que fica impresso na sua retina, presidente.

Não é caso para oftalmologista e sim para quem entende de coração.

Estar ao lado de quem tirou um país deste tamanhão do mapa da fome, que colocou tanta gente boa nas Universidades e que diminuiu drasticamente a mortalidade infantil já é motivo de um deleite infinito.

Sentir a força do bem é algo indescritível.

Você, meu presidente, devolve a esperança com um simples bom dia sorrindo emocionado andando pelos corredores de um hospital reformado.

Sigo, como sempre faço questão de repetir, a seu serviço.

Quando você me chama pelo meu nome no meio de uma multidão, vou ao seu encontro me sentindo a Beyoncé no palco descendo escadas com os cabelos esvoaçantes.

Sei o tamanho da minha sorte por ser reconhecida pelo melhor presidente que este país já teve.

Como não sou dessas de perder oportunidades, sempre falo em nome de muitas pessoas que não têm a mesma sorte que eu de poder te dar um abraço:

Obrigada por tanta dedicação e carinho com o povo brasileiro, presidente.

Seguimos ao seu lado.

❤️🌹

📷 Ricardo Stuckert

Vento de través

Há anos sonho em aprender a velejar. Algo me impedia: minha surdez. Só ouço bem com meus aparelhos auditivos e não poderia arriscar perdê-los no mar.

Minha agenda nunca coincidia com a de algum filho. Fora isso, o curso não é de um dia. No mínimo, dez horas para aprender o básico. Impossível conciliar nossos horários.

Sozinha não tinha como.

Não poderia contar com ajuda de mais ninguém que não fosse uma pessoa muito próxima que soubesse se comunicar comigo quando estou sem meus aparelhos.

Precisava de alguém que repassasse imediatamente a orientação do professor.

Nesse recesso de Janeiro, depois de anos, consegui que Pipo me acompanhasse e fosse, para além do meu amor, meus ouvidos.

Não foi fácil para ele. É muita informação. Pipo tinha que assimilar o comando e, antes de agir, transmitir para mim o que entendeu.

E estávamos falando um idioma novo: orçar, arribar, bombordo, boreste, bolina, leme, retranca, quilha, casco, vela… por vezes, eu entendia mas não me lembrava do que se tratava.

E tem mais:

Entre o que um professor fala e o que uma pessoa entende há um espaço que se assemelha a um tipo de abismo.

Entre o que uma pessoa entende e o que ela propaga logo depois para uma outra, há uma espécie de tradução onde deveria haver somente uma transmissão.

Mais um detalhe: em uma situação que temos que pensar, nem sempre conseguimos falar.

Ou seja, a função do Pipo não foi nada simples.

Erramos muito em vários momentos.

Chegamos a virar o barco e cair no mar. Nessa hora, era o homem gritando de um lado, o Pipo do outro e eu surdinha sem entender patavinas mas achando lindo ficar desesperada vendo o Pão de Acúcar.

Ao menos isso, pensei.

Se for para ficar perdida, abalada e confusa, que seja dentro de um Cartão Postal.

Conseguimos, com orientação e vontade de viver, desvirar o dingue.

Achei um luxo subir no barco no meio do mar sem ajuda de ninguém. Logo depois de ter feito tanta coisa errada, estava feliz porque meus bíceps responderam ao meu comando. Acho chique ter autonomia.

Enfim, ainda estou aprendendo e tentando compreender com meu corpo a lidar com o vento soprando em várias direções.

Essas são imagens da nossa primeira aula.

Minha intenção é conseguir autorização da Marinha para velejar sozinha. Para isso, há um chão a percorrer. Ou melhor, um mar a navegar.

Velejar contra o vento, coisa que a princípio, parece impossível, me fez compreender outras coisas como aqueles que têm epifanias. Para navegar em direção oposta ao vento, a trajetória em linha reta não é a solução. O zigue-zague com paciência é a chave. E vento em popa não é grandiscoisa. O melhor é vento de través.

Estou levando esses aprendizados para terra firme.

Viagem no tempo e no sofá

Estou de férias. Não viajei porque estava com saudade de ficar na minha casa lendo e na expectativa de voltar a escrever alguma coisa.

Depois que virei deputada, meu tempo ficou muito escasso. Talvez não pareça, mas levo horas escrevendo um texto que é lido em três minutos.

O fato é que hoje acordei e deitei no sofá. Estava abrindo o livro da Andréa Pachá quando me assustei ao ver que havia uma nave esquisita no meio da sala.

Era algo grande, parecia feito de um metal que tinha o tom dourado. Havia uma porta e sou dessas de entrar para ver qual é.

Infiltrei-me com as pupilas dilatadas porque estava tudo bem escuro.

Sentei-me na única cadeira que ali estava super acolchoada e me pedindo para me acomodar como um garçom na porta de um restaurante vazio faz apontando o cardápio para as pessoas que andam nas calçadas.

Havia um cinto de segurança que usei por medo de sei lá meodeos… voar?, colidir?, acelerar até chegar a velocidade da luz?.

Ouvi, então, uma voz metalizada.

– Preparada?

Eu que nem café da manhã tinha tomado e muito menos me penteado ou me maquiado porque estou de férias e porque sim, enfim, comecei a me lembrar de tudo o que fiz na vida sem que tivesse me planejado para nada e de tanta coisa que deu errado por ter agido no impulso, enfim… respondi depois de tanto aprendizado:

– Sim!

Eu havia entrado na cápsula do tempo e fui parar no meu quarto em Madureira em 1988, há exatos 37 anos.

O barulho da minha chegada assustou eu mesma com 15 anos que estava sentada lendo “Sem Tesão não há Solução” de Roberto Freire.

Nos olhamos. Eu, 51, e eu, 15.

Depois de tudo explicado, tive um diálogo sem precedentes na minha vida. E tudo tinha que ser muito rápido porque eu não sabia que horas a cápsula iria partir e eu, 51, estava preocupada em colocar ração para minha gata.

– Meu pai tá vivo?

Eu, 15, tinha acabado de ver papai tendo um enfarto e ainda estava assustada.

– Sim. 85 anos com Alzheimer, mas está tudo bem.

– Eu vou casar e ser feliz?

– Mas, menina, você já tá decidida que não vai casar virgem, já decidiu que nenhum homem vai mudar o seu sobrenome, quer fazer faculdade de física, já implica com a música Minha Namorada de Vinícius… E ainda está conectando sua felicidade a um casamento?

– Eu vou casar com o Nelson?

– Vai.

– Ah, que felicidade!

– Vai ter três filhos e o primeiro não será dele, mas ele lhe chamará de pai.

– Como?

– Não tenho tempo de explicar.

– Vou ser feliz para sempre?

– Com ele? Não. Mas terão 20 anos bem divertidos.

– Ele vai morrer?

– Não. Mas vocês vão se separar.

– Ele vai me deixar?

– Não. Você vai querer viver outras coisas.

– Eu? Você pode estar me confundindo!

– Tô nada.

– O Sarney vai ficar até quando? A carne vai voltar a ser vendida nos supermercados e açougues?

– Sarney vai ficar até acabar o mandato. O outro que vem a seguir que vai durar pouco. A carne vai voltar, mas você vai virar vegetariana algum dia.

– Eu? Nem pensar. Amo carne. E o nordeste? Vai ser sempre essa fome e seca?

– Não. Essa miséria que você vê todo dia no jornal e essa seca vão melhorar. Lula será eleito em 2003 e população mais pobre vai conseguir entrar nas Universidades…

– Ah, que lindo! Jura? Que beleza! Que futuro lindo! Vamos melhorar o mundo! Nem acredito!

– Eh… bem… você vai acompanhar uma série…

– Série de televisão? Odeio.

– Uma série de golpes que o Brasil vai levar.

– Golpe?

– Isso. Golpe.

– E não vai dar para evitar?

– Difícil. Haverá uma máquina potente endinheirada que vai querer o PT longe. E logo depois teremos o Didi Mocó como presidente, professores serão atacados, viveremos uma pandemia sem ministro da saúde, o fundamentalismo religioso vai vir forte, Lula vai voltar em 2022, mas teremos o 8 de Janeiro e o telefone fixo vai acabar.

– O quê? E como a gente vai se comunicar?

– Por celular. E falaremos pouco porque teremos whatsapp. Mandaremos áudio curtos se formos educados e a pessoa responde quando puder.

– Não é melhor ligar?

– Deus me livre. Não. Mensagens curtas e áudios breves. Vai ter chamada de vídeo também.

– Tipo os Jetsons?

– Sim. Tipo isso.

– Teremos carros voadores?

– Não. Teremos muito engarrafamentos.

– Vou me apaixonar de novo por uma outra pessoa?

– Vai. Mas vai muito. De perder a virgindade de novo. Mas isso depois que o Lula te ligar.

– O Lula vai me ligar?! Por quê?

– Porque você… ih! A máquina vai embora.

– Calma! Me dê uma dica boa! Um bom conselho! O que não devo fazer? O que devo evitar?

– Ultraprocessados e, por favor, não se apegue tanto ao Ayrton Senna e tome muito cuidado com o…

A cápsula acendeu e tive que entrar rapidamente nela.

– Com quem?

– Com o wurfrejfrjgbjkefbg…

Eu, 51, respondi, mas eu, 15, não entendi porque a cápsula fazia muito barulho e já estava ficando surda.

Fui direto para 2050.

A cápsula apareceu dentro de um quarto onde estava eu com 77 anos lendo Guta Jimenez, uma escritora lésbica e surda que ninguém ainda conhece.

Depois de tudo mais ou menos entendido e explicado sobre a minha cápsula do tempo, eu 51 olhou para eu 77:

– Com que idade você raspou a cabeça? Sempre quis fazer isso. Ficou ótimo!

– Há uns dez anos e gostei. Raspei por conta de uma promessa depois que minha neta foi internada.

– Neta? Filha de quem? Ela está bem?

– Está ótima. Yuki (43) quase enfartou quando soube do acidente.

– Filha do Yuki? Meu bebê será pai?

– Sim.

– E Nara? E Hideo? Pera. Meu deus… Minha mãe e meu pai…

– …

– Não quero ficar aqui não. Preciso voltar e dar ração para minha gata. Como está o Brasil? Resolvemos a emergência climática? Conseguiu virar vegana? Serei senadora? Quantos livros você já escreveu? As Escolas Públicas melhoraram? A violência nas comunidades acabou? Você ainda pedala e planta bananeira? Cadê seu celular?

– Aquilo não faz bem não. É tipo ultraprocessados. Deixamos de usar.

– E como se faz para se comunicar?

– Telefone fixo.

– Oi?A cápsula começou a piscar rápido. Entrei correndo e antes que a porta se fechasse, perguntei, eu 51, para mim, eu 77:

– O que você me aconselha? O que não posso deixar de fazer? Me fala algo importante!

– Musculação e não acredite no… rotuerjfgerufe

A porta se fechou no meio da frase e pá. Caí grazadeus na minha sala e vim correndo contar para vocês o que eu vivi.

Preciso voltar a escrever imediatamente para ocupar minha cabeça viu. Disseram que essa cápsula aparece quando estamos de preguiça no sofá.

Porque hoje é sábado

É raro eu pedalar porque preciso de (e do) tempo. Tempo desses que contamos no relógio e tempo, também, que vemos nas nuvens ou na ausência delas. Coincidir esses dois conceitos é algo raro em minha vida.

Por vezes, há um sábado lindo pela frente cheio de nuvens e pouco vento. O tempo ideal para me levar para um passeio em duas rodas. Mas o trabalho me chama.

Ontem, os astros se alinharam. O céu e minha agenda estavam repletos de convite para um autocuidado.

Quando minhas mãos seguram o guidão, estão impossibilitadas de mexer em um celular. E mesmo que eu pedale com as mãos livres por quilômetros, preciso delas distantes uma da outra para que o equilíbrio se faça.

Evito, também, ouvir música. Para além de focar na paisagem – que é uma das mais lindas do mundo – concentro-me em mim mesma. Pensamentos vêm das mais remotas origens e eu que lide com eles enquanto pedalo. Conforme o corpo se mexe, tento aquietar essa cabeça.

Não há pressa. Não há meta. Há um sábado e uma necessidade de manter o equilíbrio e me levar para um passeio sem pisar o pé no freio e sem pensar no fim.

Gosto da imagem e da sensação de não conseguir estabilidade com a bicicleta parada. Somente no movimento, seu eixo tende a permanecer paralelo ao solo – e surpreendentemente nos coloca no centro por uma soma de fenômenos físicos e uma vontade perfumada e tensa de sair vagando por aí.

Não. Não me canso. Ontem fiquei quase cinco horas em cima da minha Taki-bike. Paro muito e ando devagar porque o Rio de Janeiro continua lindo e, assim como não me acostumo com nenhum tipo de violência, a beleza, por sorte, não me enjoa. Sigo perplexa ao ver gaivotas e urubus com o Corcovado, o Pão de Açúcar ou o Morro Dois Irmãos compondo o cenário. Deve ser como cumprimentar um neto. Sempre uma mistura de alegria com perplexidade por estar diante de algo tão bonito.

Quando pedalo, não há objetivo de queima de calorias ou fortalecimento muscular. Há um sábado apenas.

Ontem, ainda assim, bati um recorde de distância sem que me esforçasse para isso.Saí do Largo do Machado, dei a volta na Lagoa, fui ver o pessoal descendo ali de asa delta e parapente na praia de São Conrado.

Observando as pessoas voando enquanto eu pedalava pensei na física toda envolvida. Sou professora dessa disciplina e posso afirmar que tanto na asa delta quanto na bicicleta, o equilíbrio ocorre quando as leis de Newton adquirem autonomia e vão sozinhas para uma festa.

Pensando na explicação de tanta coisa e rindo sozinha, acabei indo até a Praia do Pepê na Barra.

Hoje é dia de feira, de arrumar a geladeira para a semana e de ver papai e mamãe. Ah claro, e dia de pular muita corda naquele quintal em Madureira porque aos Domingos, lesiono meus joelhos. Me machuco como acontece com quem brinca.

Um excelente Domingo e boa semana para vocês.

Sobre varandas

Morei por 45 anos na mesma rua em Madureira. Sempre em uma casa. Primeiro na casa de mamãe e de papai – que é uma casa virada para a rua – e, depois, em uma vila. Há cinco anos, moro no Catete em um apartamento alugado, de fundo e sem varanda.

Sinto falta de ver coisas. Tenho reclamado para Pipo que, no nosso próximo cantinho, tem que ter uma varanda com uma vista para seja lá o que for mas que não sejam somente essas janelas de outros apartamentos que sequer ficam abertas para eu me distrair com a vida alheia.

Pipo diz que é besteira. Para provar que está certíssimo, Pipo observa todos os dias pela janelinha da área de serviço as varandas – sempre vazias – do prédio ali distante. Outro dia, veio me dizer que viu, de fato, gente na varanda: uma pessoa varrendo, um pintor e um bolsonarista gritando algo segurando a bandeira do Brasil em pleno 7 de setembro. Ou seja: varanda só serve para dar trabalho. Ninguém usa. Diz Pipo em um esforço inútil para me deixar menos desolada. 

Sigo ávida para olhar alguma coisa e fico sonhando com um apartamento com varanda, ou, vá lá, com uma janela interessante. Veria do alto, o pátio de uma escola com as crianças pulando corda na hora do recreio, jogando amarelinha, brincando de pique. Observaria o jardim de um palácio com as maritacas fazendo algazarra por conta do casamento do João de Barro com a Maria de barro. Contemplaria atenta a assembleia dos gatos rebeldes em cima dos telhados. Testemunharia um assalto em uma avenida movimentada e gritaria lá de cima attenzione pickpocket. Assistiria um dramático pôr do Sol e meditaria sobre como nosso planeta gira rápido e não sentimos nada. Lembraria de Galileu todo dia. 

Lá de longe, miraria a chuva chegando como quem vem com uma grande novidade e o vento bagunçando as copas das palmeiras que passaram o dia se penteando. Presenciaria um resgate com um helicóptero de uma pessoa se afogando no mar e assim que o bombeiro a salvasse, eu enxergaria uma baleia dando um salto bem mais ali para o horizonte. 

Contaria a frequência com que os aviões passam por aquela rota ali no ar. Tentaria estimar a velocidade da aeronaves fazendo uma regra de três. Sou boa em conta e me distraio calculando como quem faz palavras cruzadas. Vibraria ao ver o show da esquadrilha da fumaça da varanda.

Plantaria flores em vasos bonitos e esperaria a visita dos beija-flores e das lagartas. Eles viriam aos montes e elas me chateariam um pouco. Avistaria uma colisão entre dois carros com ninguém se ferindo. Olharia os motoristas discutindo e, depois, eles se esbofeteando. Chamaria Yuki para ver e contemplaríamos blocos de Carnaval, crianças saltitantes voltando da escola, a ciclovia movimentada, pessoas conversando em libras, um circo sendo erguido, peteca histérica sendo arremessada entre amigos, partidas de futebol feminino e frescobol praticado por cadeirantes. 

Observaria a tormenta e a calmaria habitando a mesma tarde e as manhãs cheias de segredinhos. Veria uma senhora de mais ou menos setenta anos patinando todo dia pelas manhãs e uma mãe chegando da maternidade.

Diferenciaria o azul, o cinza, o branco e o vermelho quando olhasse e visse. 

Espiaria gente se exercitando e pessoas paradas como eu olhando o que tivesse para ser visto. Mas, meudeus, como teria coisas de lá de fora para entrar na minha cabeça. Teria todo dia elementos para uma crônica. Escrever é muito mais fácil para quem tem paisagens. O quanto perderia a literatura se todas as pessoas que escrevem vivessem em apartamentos sem varandas com vizinhos silenciosos e reservados como os meus?

Poderia ser que a minha vista fosse ofuscada pelos galhos de uma árvore bem alta. Poderia. Ainda assim, observaria as estações passando, ninhos sendo construídos, morcegos dormindo de cabeça para baixo, flores se abrindo e pegaria uma fruta madura esticando a mão. Veria uma fruta crescer e protegeria, com alguma gambiarra, minha manga dos passarinhos. Daria água para o moço amarrado por uma corda enquanto ele podasse os galhos mais fofoqueiros que estivessem invadindo a minha sala.

Para convencer Pipo de que meu desejo procede e que estou certa, resolvi registrar tudo o que estamos perdendo.

Não “lave as mãos”.

Nessa altura do campeonato, você já deve ter ouvido o caso da mulher que foi estuprada depois de ter sido deixada desacordada na calçada em frente a sua casa pelo motorista do aplicativo.

O tribunal da internet já apareceu e estou aqui lendo a quantidade de comentários dizendo que o “motorista não teve culpa”.

Muita gente que isenta de culpa e responsabilidade o motorista e o tal amigo (que colocou a moça até então acordada no carro) e o irmão (que dormiu porque estava medicado e não conseguiu ouvir a campainha) e o outro homem (que ajudou a tirar a moça do carro)… enfim, muita gente que fala que ninguém teve culpa nessa história – e tantas outras – certamente agiria da mesma forma.

“Já fiz a minha parte. Não é mais problema meu”.

Assim pensam.

É interessante a naturalidade com que as pessoas dizem que não têm culpa. Quando vemos crianças dormindo na rua, passamos direto porque “não temos culpa”. Quando vemos pessoas idosas com feridas abertas pelas calçadas, continuamos a andar porque não temos culpa. Quando vemos menores de idade trabalhando em sinais de trânsito debaixo do sol e de chuva, sequer abaixamos o vidro porque não temos culpa e, portanto, por essa lógica torta, também não temos a obrigação de ajudar, cuidar ou proteger.

Esse crime que poderia ter sido evitado em tantos momentos escancara o quanto esse mundo nos tornou perversos.

As primeiras perguntas que me faço diante dessa tragédia humana são:

O que custaria acompanhar essa mulher até um lugar seguro? Tempo? Dinheiro? Quanto? Quanto vale uma vida? O fato de nascermos em um mundo tão torto nos exime da responsabilidade de tentar consertá-lo? Não ter responsabilidade legal sobre alguém que está vulnerável é motivo suficiente para que eu não precise fazer nada para protegê-lo?

Abandonar uma mulher inconsciente na calçada de um país que tem quase um milhão de casos de estupro por ano, dois estupros por minuto, enfim, deixar uma moça desacordada na porta de casa é o bastante para dar uma corrida por encerrada?

O motorista lavou as mãos tal como Poncio Pilatos fez ao libertar o bandido Barrabás e entregar Cristo inocente para ser crucificado. Pilatos entrou para a história como o omisso covarde que ao ser colocado de frente a uma decisão importante faz o que é mais fácil ainda que sua atitude seja sem ética, sem moral e sem escrúpulos. O motorista lavou as mãos e há muitos homens as enxugando.

A moça, como tantas de nós, foi vista por quem por ali passou como algo público. Por estar na rua, muitos acham que uma mulher é de todos, assim como a calçada que pisam. A imagem da moça sendo carregada como se fosse um saco de batatas dói porque somos nós ali. Nós que até mesmo dentro de um hospital, lugar de cuidado e acolhimento, somos estupradas.

No conforto do sofá, estão dizendo que o motorista não teve culpa.

Sinto dizer mas não há ninguém blindado, imune ou isolado do mal que existe nessa bagaça. Se não contribuirmos para que tanta maldade e injustiça diminuam, seremos, de um jeito ou de outro, atingidos por elas.

Dizem que as desigualdades e injustiças que existem por aí “não são minha culpa” porque “quando nasci o mundo já era assim”. Ou seja, “não posso fazer nada”.

Claro que pode. Toda pessoa tem o potencial de mudar o mundo. Ao proteger um ser humano, o universo melhora como um todo. E nem é tão difícil assim alterar o infinito…

Que o estuprador seja preso e que o restante dos homens pare de lavar as mãos diante de escolhas como essas.