Viagem no tempo e no sofá

Estou de férias. Não viajei porque estava com saudade de ficar na minha casa lendo e na expectativa de voltar a escrever alguma coisa.

Depois que virei deputada, meu tempo ficou muito escasso. Talvez não pareça, mas levo horas escrevendo um texto que é lido em três minutos.

O fato é que hoje acordei e deitei no sofá. Estava abrindo o livro da Andréa Pachá quando me assustei ao ver que havia uma nave esquisita no meio da sala.

Era algo grande, parecia feito de um metal que tinha o tom dourado. Havia uma porta e sou dessas de entrar para ver qual é.

Infiltrei-me com as pupilas dilatadas porque estava tudo bem escuro.

Sentei-me na única cadeira que ali estava super acolchoada e me pedindo para me acomodar como um garçom na porta de um restaurante vazio faz apontando o cardápio para as pessoas que andam nas calçadas.

Havia um cinto de segurança que usei por medo de sei lá meodeos… voar?, colidir?, acelerar até chegar a velocidade da luz?.

Ouvi, então, uma voz metalizada.

– Preparada?

Eu que nem café da manhã tinha tomado e muito menos me penteado ou me maquiado porque estou de férias e porque sim, enfim, comecei a me lembrar de tudo o que fiz na vida sem que tivesse me planejado para nada e de tanta coisa que deu errado por ter agido no impulso, enfim… respondi depois de tanto aprendizado:

– Sim!

Eu havia entrado na cápsula do tempo e fui parar no meu quarto em Madureira em 1988, há exatos 37 anos.

O barulho da minha chegada assustou eu mesma com 15 anos que estava sentada lendo “Sem Tesão não há Solução” de Roberto Freire.

Nos olhamos. Eu, 51, e eu, 15.

Depois de tudo explicado, tive um diálogo sem precedentes na minha vida. E tudo tinha que ser muito rápido porque eu não sabia que horas a cápsula iria partir e eu, 51, estava preocupada em colocar ração para minha gata.

– Meu pai tá vivo?

Eu, 15, tinha acabado de ver papai tendo um enfarto e ainda estava assustada.

– Sim. 85 anos com Alzheimer, mas está tudo bem.

– Eu vou casar e ser feliz?

– Mas, menina, você já tá decidida que não vai casar virgem, já decidiu que nenhum homem vai mudar o seu sobrenome, quer fazer faculdade de física, já implica com a música Minha Namorada de Vinícius… E ainda está conectando sua felicidade a um casamento?

– Eu vou casar com o Nelson?

– Vai.

– Ah, que felicidade!

– Vai ter três filhos e o primeiro não será dele, mas ele lhe chamará de pai.

– Como?

– Não tenho tempo de explicar.

– Vou ser feliz para sempre?

– Com ele? Não. Mas terão 20 anos bem divertidos.

– Ele vai morrer?

– Não. Mas vocês vão se separar.

– Ele vai me deixar?

– Não. Você vai querer viver outras coisas.

– Eu? Você pode estar me confundindo!

– Tô nada.

– O Sarney vai ficar até quando? A carne vai voltar a ser vendida nos supermercados e açougues?

– Sarney vai ficar até acabar o mandato. O outro que vem a seguir que vai durar pouco. A carne vai voltar, mas você vai virar vegetariana algum dia.

– Eu? Nem pensar. Amo carne. E o nordeste? Vai ser sempre essa fome e seca?

– Não. Essa miséria que você vê todo dia no jornal e essa seca vão melhorar. Lula será eleito em 2003 e população mais pobre vai conseguir entrar nas Universidades…

– Ah, que lindo! Jura? Que beleza! Que futuro lindo! Vamos melhorar o mundo! Nem acredito!

– Eh… bem… você vai acompanhar uma série…

– Série de televisão? Odeio.

– Uma série de golpes que o Brasil vai levar.

– Golpe?

– Isso. Golpe.

– E não vai dar para evitar?

– Difícil. Haverá uma máquina potente endinheirada que vai querer o PT longe. E logo depois teremos o Didi Mocó como presidente, professores serão atacados, viveremos uma pandemia sem ministro da saúde, o fundamentalismo religioso vai vir forte, Lula vai voltar em 2022, mas teremos o 8 de Janeiro e o telefone fixo vai acabar.

– O quê? E como a gente vai se comunicar?

– Por celular. E falaremos pouco porque teremos whatsapp. Mandaremos áudio curtos se formos educados e a pessoa responde quando puder.

– Não é melhor ligar?

– Deus me livre. Não. Mensagens curtas e áudios breves. Vai ter chamada de vídeo também.

– Tipo os Jetsons?

– Sim. Tipo isso.

– Teremos carros voadores?

– Não. Teremos muito engarrafamentos.

– Vou me apaixonar de novo por uma outra pessoa?

– Vai. Mas vai muito. De perder a virgindade de novo. Mas isso depois que o Lula te ligar.

– O Lula vai me ligar?! Por quê?

– Porque você… ih! A máquina vai embora.

– Calma! Me dê uma dica boa! Um bom conselho! O que não devo fazer? O que devo evitar?

– Ultraprocessados e, por favor, não se apegue tanto ao Ayrton Senna e tome muito cuidado com o…

A cápsula acendeu e tive que entrar rapidamente nela.

– Com quem?

– Com o wurfrejfrjgbjkefbg…

Eu, 51, respondi, mas eu, 15, não entendi porque a cápsula fazia muito barulho e já estava ficando surda.

Fui direto para 2050.

A cápsula apareceu dentro de um quarto onde estava eu com 77 anos lendo Guta Jimenez, uma escritora lésbica e surda que ninguém ainda conhece.

Depois de tudo mais ou menos entendido e explicado sobre a minha cápsula do tempo, eu 51 olhou para eu 77:

– Com que idade você raspou a cabeça? Sempre quis fazer isso. Ficou ótimo!

– Há uns dez anos e gostei. Raspei por conta de uma promessa depois que minha neta foi internada.

– Neta? Filha de quem? Ela está bem?

– Está ótima. Yuki (43) quase enfartou quando soube do acidente.

– Filha do Yuki? Meu bebê será pai?

– Sim.

– E Nara? E Hideo? Pera. Meu deus… Minha mãe e meu pai…

– …

– Não quero ficar aqui não. Preciso voltar e dar ração para minha gata. Como está o Brasil? Resolvemos a emergência climática? Conseguiu virar vegana? Serei senadora? Quantos livros você já escreveu? As Escolas Públicas melhoraram? A violência nas comunidades acabou? Você ainda pedala e planta bananeira? Cadê seu celular?

– Aquilo não faz bem não. É tipo ultraprocessados. Deixamos de usar.

– E como se faz para se comunicar?

– Telefone fixo.

– Oi?A cápsula começou a piscar rápido. Entrei correndo e antes que a porta se fechasse, perguntei, eu 51, para mim, eu 77:

– O que você me aconselha? O que não posso deixar de fazer? Me fala algo importante!

– Musculação e não acredite no… rotuerjfgerufe

A porta se fechou no meio da frase e pá. Caí grazadeus na minha sala e vim correndo contar para vocês o que eu vivi.

Preciso voltar a escrever imediatamente para ocupar minha cabeça viu. Disseram que essa cápsula aparece quando estamos de preguiça no sofá.

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