Benedita, esse raio vívido.

Viver no paraíso deve ser algo que se assemelhe a caminhar ao lado de Benedita.

Estamos nos aproximando da reta final de uma campanha difícil. Tenho, sortuda que sou, muitas histórias para contar ao lado de Benedita — não só desta campanha, como de todas aquelas das quais participei ao lado da faraônica.

Mas vamos nos fixar neste registro.

Depois de dias e dias chovendo, o Sol deu as caras aqui no Rio. Como não somos dessas de perder a oportunidade de fazer carreata com o calor torando na nossa caixola, lá fomos nós, leves, contentes e pleníssimas de esperança, fazer o L em cima do carro.

A largada foi dada em uma rua cheia de quiosques que vendiam peixe frito e outras iguarias.

Benedita subiu no carro em uma pernada só. Eu, logo atrás, precisei de uma certa ajuda, porque sou uma senhora de 53 anos e não uma jovem de 84.

Sem ter almoçado ainda e lá pelas duas da tarde, quando a carreata começou a andar, Benedita sorria como aquelas que lideram em todas as pesquisas para o Senado.

Eu, que nem tive tempo de tomar café, acompanhava Benedita como aqueles que sabem seguir uma líder.

Em determinado momento, alguém na rua fez um sinal nada simpático para a gente, que ouvia o rap do Silva fazendo o L com gosto.

Quando isso acontece, a dizer, quando uma pessoa é agressiva comigo pelo fato de me ver com a camisa do Lula, um misto de sentimentos invade minha alma vermelha.

Tenho um lado que vem forte nessas horas. Não sou de levar desaforo para casa e possuo uma certa desenvoltura para me defender. Mas tenho também o lado professora, figura pública que precisa dar o exemplo e, com a graça das deusas menopausadas, esse lado fala mais alto na maioria das vezes. Sorrio e faço um coração com as mãos para a pessoa que me ofende, desejo boa sorte e sigo acenando para o povo, firme, forte, toda impávida colossa.

Perguntei para Benedita — quando o sinal fechou e o barulho do vento em nossos ouvidos diminuiu — o que ela pensa quando alguém não a trata com respeito.

Benedita olhou para mim e fez uma cara de preocupada, como quem está elaborando uma resposta.

Depois, mudou o semblante e me falou:

“Eu, exatamente agora, Elika, olhei para ele e só pensei no peixe frito. Ah, que vontade de comer um peixinho frito!”

Rimos muito, e o registro foi feito.

A carreata terminou.

Benedita, esse raio vívido, fez um discurso potente, com o coração cheio e, ainda, o estômago vazio. Falou para todas as pessoas que a esperavam no fim da carreata sobre a importância de eleger Lula, a necessidade urgente de mudar a cara do Congresso e a importância de colocar uma professora na Alerj. Para quem não sabe — não sei explicar isso sem me sentir divônica —, sou professora e quero seguir trabalhando na Alerj. Quase morri ouvindo isso da Benedita.

Dito isso, depois de empolgar geral, lá foi Benedita da Silva, gigante pela própria natureza, correndo para outra agenda.

Que o futuro espelhe a grandeza de Benedita. O Brasil ficará maior com a força, o foco, a alegria e toda a capacidade intelectual desta mulher no Senado.

Um sonho intenso de amor e esperança à terra desce quando estamos ao lado de Benedita da Silva.

Daniel Vorcaro e a nossa Democracia

O caso Daniel Vorcaro pode ser lido como algo maior do que um escândalo bancário: ele funciona como um estudo de caso sobre a transformação de poder econômico em poder político. O aspecto mais perturbador não é simplesmente descobrir se determinado político, ministro ou empresário cometeu um crime e sim perceber a possibilidade de que uma pessoa sem receber um único voto consiga adquirir uma capacidade de acesso às instituições que milhões de cidadãos jamais terão.

Essa distinção acima apontada é fundamental porque uma democracia pode continuar realizando eleições e, ao mesmo tempo, tornar-se profundamente desigual na distribuição do poder político.

Vem refletir comigo:

Cidadãos possuem o mesmo voto, concordam? Independente de quanto você ganha, você vota uma vez como qualquer outra pessoa. Porém, alguns possuem capacidade incomparavelmente maior de influenciar aquilo que acontece entre uma eleição e outra, ou seja, temos igualdade eleitoral convivendo com desigualdade política.

Sabemos que dinheiro financia campanhas, think tanks, organizações, mídia, acesso e produção de influência. Isso não significa literalmente comprar votos. Essa influência é muito mais sofisticada e complexa.

Imagine dois cidadãos:

Um trabalhador discorda de uma decisão do governo. O que ele pode fazer? Escrever para o parlamentar, protestar, votar, participar de uma associação.

Um agente econômico extremamente rico pode fazer tudo isso e, adicionalmente, contratar os melhores escritórios de advocacia e consultorias do país, patrocinar eventos frequentados pelas elites, contratar pessoas conectadas ao poder, financiar organizações, reunir-se privadamente com autoridades, contratar familiares ou pessoas pertencentes às redes das autoridades, acessar parlamentares, governadores e ministros e produzir relações permanentes com centros decisórios.

Ambos possuem um voto, mas não possuem o mesmo poder político, percebem?

Uma curiosidade: o Banco Master era pequeno em relação ao sistema financeiro brasileiro. Segundo o próprio Banco Central, o conglomerado representava apenas 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional quando sua liquidação foi decretada em novembro de 2025. O BC justificou a intervenção por grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e “graves violações” das normas do sistema financeiro.

Perceba a desproporção:
Um banco com menos de 1% do sistema financeiro conseguiu produzir uma crise política que alcançou Congresso, governos estaduais, Banco Central, Polícia Federal, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal.

Como um empresário consegue acumular tamanha centralidade política sem jamais ocupar um cargo eletivo?

Estamos vendo com o caso Vorcaro que oligarquia e democracia podem coexistir. Não é necessário que o milionário vire presidente, governador ou deputado para influenciar todo o sistema. O milionário pode continuar fora do Estado e atuar diretamente nele.

O poder oligárquico surge quando a concentração excepcional de riqueza concede a determinadas pessoas recursos materiais radicalmente superiores aos disponíveis aos demais cidadãos, permitindo-lhes exercer influência política desproporcional.

O oligarca moderno não precisa sentar no trono, ele pode sentar à mesa de quem decide. E Vorcaro mostra que não estou falando besteira.

O político possui poder formal e responsabilidade pública. O grande agente econômico possui poder informal sem responsabilidade eleitoral equivalente. E esse poder informal é especialmente difícil de controlar democraticamente.

Elites econômicas conseguem exercer influência política muito superior à influência isolada do cidadão médio porque, por exemplo, um empresário extremamente rico pode financiar uma infraestrutura permanente de influência:advogados, lobistas, economistas, relações institucionais, assessores, consultores, comunicação, pesquisa, eventos e relações públicas.

E isso é crime? É eticamente duvidoso, mas nem tudo é crime. Jantar com um político crime? Não. Esse contrato é crime? Pode não ser. Conhecer um ministro é crime? Evidentemente não. Patrocinar um evento é crime? Não. Conversar com um governador? Não.

Mas temos um problema:

Quando centenas de relações aparentemente independentes formam uma infraestrutura de acesso extremamente desigual, o problema democrático pode existir mesmo antes de aparecer um crime comprovado.

Quando pensamos em ameaça à democracia, pensamos imediatamente em golpe: tanques, invasão de Poder, cancelamento de eleições ou ditadura.

Mas existe outro processo, muito mais silencioso: As instituições continuam funcionando, o eleitor continua votando, os deputados continuam legislando e  os tribunais continuam julgando mas, determinadas pessoas passam a possuir muito mais capacidade de influenciar essas instituições do que outras.

Esse é o exemplo de que a democracia formal pode conviver com uma espécie de oligarquização material. Ou seja: oligarquia não é incompatível com eleições democráticas.

Estamos vendo pelo mundo que quem possui grande poder econômico consegue influenciar as regras que determinam como o próprio poder econômico será regulado. Ou seja, é o jogador ganhando influência sobre o árbitro, sobre o campeonato e eventualmente sobre as regras do jogo.

Instituições democráticas precisam ser e serem percebidas como imparciais porque quando as pessoas acreditam que “todo mundo lá em cima está combinado”, tornam-se mais receptivas a candidatos que prometem: “Vou destruir tudo isso.” Esse processo é perigosíssimo e é o que estamos vivendo em 2026.

Quando falamos do risco de termos hoje milionários e bilionários circulando entre nós é porque sabemos que uma pessoa que tem muitos dinheiros, ainda que não seja político, pode exercer muito poder.

Como dizem, é sobre isso.