Uma Fábula Amoral

Lei de Murphy ( 0 ) x ( 5 ) Fé na Kátia

Nesta semana foi realizado no Rio um ato público tendo como objetivo protestar contra os assaltos feitos com faca e contra falta de segurança na Zona Sul da Cidade Maravilhosa. A reunião ocorreu em um teatro grande que se localiza no Leblon e foi organizada por estudantes de uma faculdade particular na Gávea. Estava lotado. Os oradores liam seus discursos com exceção de um, o último, que era policial e todo entendido em defesa pessoal. Este bravava contra o governo federal, municipal, estadual e a Universal. Enquanto discursava, levantou-se um homem na primeira fila, correu em direção ao policial e deu-lhe cinco facadas.

O público entrou em pânico. Começou a mó gritaria e empurra empurra. Todos queriam sair ao mesmo tempo até que o homem com a faca ensanguentada na mão gritou: Não! Não se assustem! Esperem! Sentem-se que tenho algo a lhes dizer! E quando as pessoas olharam para trás viram os dois, o homem da faca e o policial em pé, um ao lado do outro sorrindo.

Tudo não passara de uma encenação. O sangue era de mentira assim como a faca que foi comprada em loja de mágicas. Queriam com aquilo, explicaram, mostrar que por mais que esperemos de tudo não esperamos pelo inesperado. Enquanto proferiam de forma didática, levantou-se outro homem na segunda fila munido também com faca e atacou os dois que estavam em pé no palco que caíram ensanguentados.

Mais gritos e pânico. Lá estavam todos amontoados e se empurrando em direção à porta principal. Porém, de novo ouviram: gente! Aqui! Não! Esperem! Podem ficar tranquilos!

Quando o público olhou para o palco, lá estavam os três sorrindo. O segundo matador explicou que por mais que esperemos de tudo não esperamos pelo inesperado. Enquanto falava, levantou-se um homem na terceira fila e de longe mesmo lançou três facas. Uma acertou o policial, outra o primeiro matador de mentira e a outra o segundo matador de mentira.

O público foi se levantando e saindo aos poucos sem correria desta vez. O lançador de facas, no palco, dizia para todos ficarem porque tudo não passava de uma encenação para mostrar que por mais que esperemos de tudo não esperamos pelo inesperado.

E a coisa ficou nesse vai e volta, vai e volta e vai e volta. Espirra líquido e tudo depois recomeça. Até que as pessoas deram de sair mesmo. A essa altura, o palco estava com uns trinta homens sujos de catchup e na platéia meia dúzia de gatos pingados. Enquanto o último matador de mentira explicava que por mais que esperemos de tudo não esperamos pelo inesperado para uma única senhora que restara, ao final, na platéia, esta, cheia das plásticas e extremamente loira, retirou de sua bolsa de grife dois revólveres e de onde estava com as duas mãos atirou quase que ao mesmo tempo descarregando ambas as armas.

Levantou-se e foi embora. Ficaram no palco os cadáveres de todos que haviam encenado.

Aqueles que saíram disseram que desistiram da palestra pois já estavam de saco cheio e tinham dado a lição como entendida.

E agora, José? (Parodiando Drummond)

rio

E agora, José?
A Perimetral acabou,
O prefeito surtou,
Cet-Rio talqueparil…
a Rio Branco estreitou,
e agora, José?
e agora, você?
você que tinha fome,
e almoçava com os outros,
você que tinha acessos,
e andava pras festas…
e agora, José?

rio2

Está sem um qualquer,
está sem percurso,
está sem caminho,
já não pode correr,
já não podia se atrasar,
Eduardo Paes, não fode!
o ônibus aumentou,
o 383 não veio,
o 254 não veio,
o 201 não veio,
não creio na Supervia!
e a barca atrasou
e o metrô entupiu
e o trem lotou
e agora, José?

metro

Com o volante na mão
quer ver onde desemboca,
sai da frente, idiota!
quer correr pro bar,
mas a esposa vetou;
quer virar a esquina!
nem a esquina não dá mais!
José, e agora?

rio4Se você voasse,
se você desaparecesse,
se você pedalasse
no asfalto fluminense,
se você sumisse,
se você retornasse,
se você corresse…
Mas você nem corre,
eu te esconjuro, José!

São Paulo páreo duro
e qual paulista revoltado,rio5
sem nenhuma via,
sem nenhuma rua
para se transitar,
sem helicóptero preto
ou mesmo um rosa choque,
você murcha, José!
José, está longe?