Deus, Jesus e Duvivier

Querido povo terráqueo,

Aqui quem fala é Deus. Tenho acompanhado vocês faz um tempo e sei que dispenso explicações de minha, digamos, pessoa. Resolvi interferir diretamente e de forma clara desta vez porque parece que as coisas fugiram do controle a ponto de um tal de Duvivier escrever em nome de Jesus se dizendo de esquerda e que já voltou à Terra disfarçado de prostituta, escravo, transexual, cachorro de chinês e sei lá mais o quê. Até aí, vá lá, tudo bem. Mas ele errou feio, errou rude quando disse que a nossa biografia é a Bíblia. Lendo as Escrituras fica confuso concluir algo sobre meu filho e Eu.

Vejam os Dez Mandamentos, por exemplo. Respondam-me: vocês deveriam honrar a vontade de seus pais se eles me pedissem para quebrar algum dos outros mandamentos? Vocês podem roubar para prevenir um assassinato? É certo quebrar o sábado santo ou mentir para salvar a vida de alguém? Percebem como o bem e o mal são relativos? Não dá para tomar esse livro como verdade absoluta se cada um pode interpretar de um jeito e ainda assim todos estejam corretos.

Se existe o Bem e o Mal, como vocês afirmam, como podem dizer que Eu, representando o Bem, estou no comando dado o estado calamitoso em que vocês se encontram? Como vocês justificam o câncer, os micróbios, a difteria e milhares de outras doenças que atacam as crianças comigo no poder? Vocês acham realmente que se eu fosse O Bom, O Criador e acima de tudo O Protetor isso tudo seria possível? Já contou a quantidade de pedófilos nesse mundo? Acham que Eu, O Bondoso, os criei? Quantos inocentes morrem por causa dos ciclones, dos terremotos, da pestilência e da fome? Se Eu sou o Bom e O Criador como podendo criar um mundo sem dor criei deliberadamente o contrário? Pensem, meus filhos. Reflitam peloamordedeos.

Vocês criaram conceitos que, para mim, são extremamente confusos e que não consigo sequer pensar a respeito. Comecemos pelo Amor. Muitos dizem que ele não acaba, o que não me parece verdade. Outros dizem que é um sentimento que só faz o bem, mais um equívoco gigantesco dado o número de crimes e o estado em que muitos de vocês ficam. O amor que vocês criaram vem junto de outros sentimentos que não me parecem coisa boa como ciúmes, tormentos, medo, insegurança, saudades e coisas assim que tiram a paz de qualquer amado, amante e amador tomado aqui no sentido de quem ama.

Outro conceito extremamente confuso e ininteligível é o de liberdade. O que é ser livre para vocês afinal? Quanto custa a liberdade? Como ser livre com regras que limitam e explicam essa tal liberdade? O mundo é um obstáculo para a liberdade? Um escravo pode ser livre? Dentro de seja lá qualquer sistema econômico de vocês, faz sentido falar em liberdade? Vocês se acham mesmo livres para mudar? Não é possível entender esse mundo com as palavras e conceitos que vocês criaram…

Até com a morte eu fico confuso depois que vocês passaram a existir. O que é morte depois do ser humano ter existido? A morte mata exatamente o quê? A morte liberta? Como vocês podem sentir falta de algo que nunca tiveram? Para quem teve verdadeiramente um amigo, não será a sua ausência a mais forte das presenças? É preciso estar vivo para semear uma amizade? Só há um jeito de estarmos vivos? A morte é compatível com o sentido da vida que vocês acham que existe? A morte é ou não o fim? Existimos depois de morrer?

E acrescento mais: Os pensamentos são reais? Tudo o que existe é material? Podem os mortos terem acesso a vocês? Podem os mortos compreenderem mais do que os vivos? Podem os mortos lhes ajudar senão pelas obras de arte que criaram quando vivos? As palavras que vocês criaram apontam para alguma realidade? As palavras criam mundos? O tempo que vocês inventaram, mensurável pelos relógios, é real? Há tempo por extenso? Um incêndio pode ser belo? Por que é tão difícil a comunicação entre vocês? O que vos conduz à verdade? A Verdade pode ser um ponto de vista? Um daltônico sabe o que é vermelho? É legítimo mesmo sem provas crermos em algo? Vocês são mesmo racionais? Os instintos podem estar certos ou errados? Por que é que vocês se preocupam com o passado? Quem vocês são agora determina quem serão amanhã? Pode o sentido da vida de vocês parecer sem sentido? São os deuses astronautas? Vocês podem conhecer algo inconscientemente? Não provar a culpa de alguém prova a sua inocência? Onde é que as palavras criadas por vocês se encontram com as coisas que Eu criei? Vocês conhecem melhor o mundo através dos sentidos ou através das ideias? Vocês escolhem mesmo o futuro?

Enfim, queria mostrar que as palavras são controversas e que a despeito do texto do Duvivier ter sido muito bom, ele, digamos, pecou quando mencionou que Eu e meu filho temos uma biografia pois é impossível nos descrever e falar sobre nós pelas palavras.

Em relação ao Malafaia não posso dizer nada porque não o conheço muito bem. Perguntem pro Capeta.

Fiquem em paz e bebam menos refrigerante.

Beijos divinos

Experiência

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José Cláudio era um homem extremamente religioso e temente a Deus. Acreditava tanto mas tanto Nele que pouco se lhe dava para as forças do Demônio. Defendia a ideia de que o Belzebu era antes de tudo uma figura folclórica. Tal era a ordem de grandeza de sua fé em Deus que José Cláudio chegava ao ponto de atravessar a rua sem recear ser atropelado por carros, ônibus ou caminhões. A cada final de dia, agradecia sempre feliz da vida a proteção do Seu Senhor.

José Cláudio tinha uma linda família formada por sua esposa e mais dois filhos. Mas a vida de casado, por descuido ou pela ordem natural das coisas, andava meio monótona e José Cláudio acabou arrumando uma bela amante e passou em suas orações a agradecer por ela também.

José Cláudio, como já dito, achava que a proteção dada por Deus Seu Senhor era infinita. Essa crença fez José Cláudio aumentar sem muito ponderar a frequência de seus encontros furtivos. Não ficando um dia sequer sem rezar, aconteceu de José Cláudio se apaixonar pelo seu caso extra conjugal e terminar seu casamento para poder viver o seu novo amor de forma plena. Deus, tão protetor e tão bom, havia lhe dado um novo e melhor caminho, acreditou José Cláudio.

Passados alguns meses, a ex-amante, agora namorada, outrora tão carinhosa, amarrou José Cláudio na cama e torturou-lhe munida de um canivete. Jogou ácido nas feridas abertas e em seu pênis e, ao final, fez com que José Cláudio testemunhasse seu suicídio cortando, na sua frente, sua própria garganta.

José Cláudio foi encontrado desfalecido com o corpo da maluca caído sobre o seu. Levaram-lhe para o hospital onde ficou internado por vários dias para se recuperar dos ferimentos. Quem assumiu os cuidados com ele foi a ex-esposa, menos pelo amor ao José Cláudio e muito mais pela gratidão e respeito que possuía acima de tudo ao pai de seus filhos.

No dia em que recebeu alta, um buquê de flores foi deixado na recepção para ser entregue ao depauperado José Cláudio. Dentro dele havia um pequeno envelope com um cartão de onde se leu: “Caro José Cláudio, daqui para frente você pode continuar duvidando da existência do Diabo, mas agora tem provas de que pelo menos a mulher dele existe.”

José Cláudio nunca mais orou antes de dormir por ter certeza de que havia sido o Nosso Senhor que havia mandado as flores.