Dança de Salão

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Uma forma que achei de afastar a depressão foi parar de pensar nela. Tentar entender o sentido de tudo e onde foi que havia errado estava me deixando louca. Desisti de ir adiante com a terapia e procurei buscar um ambiente em que ninguém me conhecesse, me julgasse, me questionasse. Um lugar onde apenas esquecesse. Seguindo o conselho de um amigo, entrei para a dança de salão e, para variar, observei coisas.

Na turma de iniciantes da dança de salão, vejam vocês, nunca veremos pessoas cem por cento felizes. Pelo contrário. Ninguém satisfeito com a vida entra, depois de adulto, em uma academia de dança. Todos, sem exceção, estamos ali porque resolvemos dar um “up” em nossas histórias. Recuperar a auto-estima, fazer novos amigos, superar um luto, arrumar um companheiro, afastar esse diabo que nos ronda que é a solidão. Há de se ter muito carinho com uma turma de iniciantes. Muita paciência. Mais do que técnica, muito amor. E foi isso que encontrei grazadeus.

Aprendi não novos passos, mas como caminhar de novo. Todas as vezes que olhava para o chão tentando não errar, era incentivada a manter o nariz apontado ligeiramente para cima que o resto lá embaixo se resolveria naturalmente. Quando pisei no pé de quem me conduzia (e isso acontece em quase toda aula) e pedi perdão, ouvi todas as vezes: não foi culpa sua, nunca é culpa sua. Não há como fazer o “dois para lá, dois para cá” pensando no que nos levou a fazer a matrícula naquela turma. Para que o movimento mais simples consiga dar certo, é necessário que ouçamos a música e prestemos atenção em quem nos dá a mão e somente nisso.

Compreendi, enfim, que esquecer os problemas também é uma forma de resolvê-los. Chutar o balde, em grande parte, não é sinal de covardia e sim de coragem. Permitindo-me brincar, ainda que encontrasse os abacaxis intactos quando voltasse para casa, percebia os problemas surpreendentemente cada vez menos ácidos e menores. Quando os ventos das mudanças começaram a soprar a ponto de me assustar, entrando para dança de salão, no lugar de fortalecer as paredes, contruí moinhos de vento. Hoje, rodopio, giro, fico tonta e dou gargalhadas. Dos meus tropeços faço agora passos cada vez mais seguros assim como da minha angústia fiz uma escada.

Enfim, mergulhei sem medo em um ambiente que jamais havia enfiado sequer a pontinha do dedo do pé. Não me preocupei em justificar a minha solidão e muito menos me envergonhei dela. Pelo contrário, habitei-a com percepções e muita música animada. Não fiquei menos sozinha, é verdade, mas povoei meu deserto.

Deu certo. Peguei as rédeas de minha vida. Segurei firme e as soltei. O cavalo segue desenbestado e totalmente sem rumo. E eu cantarolando em cima dele. Muito mais equilibrada.

Nos Embalos de Quinta à Noite

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Hideo, meu filho de vinte e poucos anos, chegou em casa um dia desta semana querendo conversar comigo. Papo reto. Mãe, é o seguinte. Quero fazer dança de salão pra pegar mulher igual o Leonardo. Tô precisando dar uma investida nisso. Ué. Faz. Respondi. Mas, mãe, o problema é que eu não sei dançar e queria que você fosse comigo para eu não ficar isolado. Daí você seria meu par.

Bom, de dança o que eu sei dá até para fazer apresentação na rua com os  meus amigos, os postes. Quando me deixo levar pela música, posso ir para um posto e passarei desapercebida como um daqueles bonecos que soltam ar pelos braços. Eu, definitivamente, ia mais atrapalhar Hideo do que ajudá-lo.

Vai, meu filho. Deve estar assim de senhorinha cheia de ginga e doida por um garotão como você. Me deixa quieta no meu canto.  Disse eu honestamente. Mas justamente disso que quero me livrar, mãe! Senhorinha por senhorinha, eu prefiro você.

Avaliei o desespero. O caso era sério. Hideo estava de verdade determinado a conquistar novinhas com passinhos marcados de bolero e samba.

– Formô. É nóis.- Falei eu com pena do meu filhote.

Quinta, na hora combinada, lá fomos nós. Quando estávamos saindo, Nara, minha filhota fofa adolescente, quis saber o que iríamos fazer. Assim que contamos, ela bateu palmas rapidinho, disse que legal!, e se juntou ao comboio.

Ao chegar ao salão onde era a aula, uma surpresa. Ao invés de senhorinhas animadas, uns doze senhorzinhos sorridentes e cheirosééésimos. Três mulheres somente contando com a professora. Bastou uma olhada rápida para perceber que a conta não fechava. Mas vá lá. Vamos ver qual é dessa aula.

Assim que foi dada a liberdade de escolhermos o par, eu e a vaca intrusa da Nara voamos no Hideo. Planei por último, perdi. O senhorzinho de blusa coral cheirando a Azarro me puxou.

Sete oito nove e um dois três quatro esquerda e um dois três quatro direita. Lá estava eu, tronco amador, rodopiando no salão mega concentrada contando até quatro infinitas vezes.

Troca o par. Sete oito nove e um dois três quatro vai pra frente e um dois três quatro vai pra trás.

Nara estava muito pior do que eu. Parecia uma múmia. Quando nossos olhos se cruzaram, ela veio em minha direção, puxou-me para um cantim para fazer uma observação: mãe, o senhor ali falou que ele me comanda, mãe! Que é o homem que conduz a mulher. Mãe! Que lugar mais machista é esse que estamos! Eu quero conduzir aquele senhor-rexona! Shhhh, Nara. Era só o que me faltava! Quer fazer a marcha das vadias em plena aula de dança? Vai pro balé dançar sozinha ou aceita o cabresto! Mas, mãe! E aquela história toda de dominação… Sete oito nove e um dois três quatro. Caguei para Nara, agarrei o Absinto que estava me esperando.

Depois de todo mundo ter contado até quatro com pares diferentes, eu finalmente fui dançar com Hideo. Daí, dá licença, me soltei. Senti-me nos Embalos de Sábado à Noite. Não aguentava mais contar até quatro! Vai, Elika, arrebenta! Ouvi do além. Mãe! Para, mãe! Mããããe! Está todo mundo olhando!

Sosseguei. Foco no objetivo principal! Lembrou o futuro Don Juan. Ok. Parei. Ensinei, então, calmamente,  meu filho encalhado a me conduzir mostrando como o Quasar e o Água de Cheiro haviam feito comigo.

Enfim, acho que vamos além dessa aula experimental viu. Voltamos eufóricos e assim que Nelson chegou do trabalho, mostramos alegres os passos que aprendemos. Bora. Sete oito nove e um dois três… Cada um em um tempo diferente. Uma troço de doido mesmo.  Nelson entendeu que se tem uma coisa que a gente precisa é aula de dança. Deu-nos força para continuar. Apoio moral é o que há.

Assim foi o nosso fim de tarde desta quinta e, até que Hideo consiga conquistar uma menina dançando, será assim, pelo visto,  nos próximos meses. Quiçá anos. Não sei qual será o final disso, mas pelo início já valeu.