Terapia: Sessão Privada.

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Hoje eu fui ao banheiro no CEFET. Para quem não sabe, dou aula de física lá. A princípio seria só aquilo de sempre, trocar umas ideias com a dona Celite, mas mal sento no trono começo a ouvir vozes. Eram duas meninas conversando.

– Foi isso, Fê. Agora eu não sei mais o que faço!

– Calma, Ju. Vamos recapitular.

Daí, pelo barulho, a Fê entrou na cabine bem ao lado da minha de forma que mesmo que eu não quisesse ouvir nada, não teve como, gente. Juro. Mal pude me concentrar no meu serviço solitário.

– Vai falando, Ju, estou te ouvindo. – disse a Fê trancando a porta.

E eu quietinha no bocão.

– Bom, primeiro o Mateus disse que estava precisando estudar e que não podia sair comigo final de semana. Eu entrava no WhatsApp e via que ele estava online o tempo todo. Depois, na segunda, ele estava super frio comigo, mas disse que me amava e coisa e tal. Na terça, estava todo esquisito. Perguntei a ele se estava tudo bem e ele disse que estava com uns problemas em casa, mas depois que eu perguntei se ele ainda me amava ele disse que me amava sim. Ontem, do nada, terminou tudo!

– Homem não presta! Tudo brocha, amiga! – sentenciou a Fê.

– Daí, eu não sei se insisto em saber o que está acontecendo. E se o Mateus estiver precisando de ajuda? Não seria meu papel, já que estou super bem de cabeça, ajudá-lo? – viajou a Ju.

– Ah não sei, amiga… Manda uma mensagem para ele!

– Mandei! Passei a minha aula toda de matemática mandando. Perguntando se ele queria conversar e coisa e tal.

– E ele?

– Ele visualizou todas. Mas devia estar enrolado prestando atenção na aula dele, tadinho. Ele anda estudando muito. – alucinou.

– Não sei não, Ju. – Disse a lerda da Fê.

E eu quieta…

– Será que o celular dele está emprestado? De vez em quando ele empresta pro João por causa da calculadora dele que é científica e calcula seno. – desvariou a Ju.

– É. Pode ser… – disse a Fê sem noção.

– Vou procurar ele na saída. Vou ficar na porta da sala dele para não me desencontrar dele. – desatinou a coitada.

– É. Pode ser. – falou a burra da Fê.

– Ah não! Isso não! – Gritei enquanto apertava a descarga cheia de atitude!

– Oi?
– Ãhn?

– Qual o problema de vocês duas?!? – abri a porta e saí direto para a pia. Enquanto lavava as mãos com firmeza continuava: – Prestenção, criatura, você não me conhece, mas eu conheço bem essa cilada. Acredita nos sinais, Ju, pelamordedeos. Não vai atrás de Mateus nenhum. Mateus não quer mais nada com você. Se quisesse e tivesse o mínimo de consideração e fosse mais homem teria aberto o jogo lá no final de semana! Mas homem é assim mesmo. Tudo covarde. Acredite nos sinais, Ju!

– Mas… mas…, tia.

– E tu não me chame de tia, Ju! Meu nome é Elika Takimoto, a rainha das sofrências! E a senhorita vai fazer o que estou falando: não vai ficar em porta de sala nenhuma, está me ouvindo? As pessoas só fazem com a gente aquilo que a gente permite! Você se dê o devido valor, dona Ju, senão não haverá Mateus, Antônio, Marcelo ou Carlos que te valorize!

– A senhora acha mesmo?

– Acho nada. Tenho certeza. Mateus não ama Ju porque Mateus despreza Ju. Mateus amanhã pode amar Ju? Pode. Mas hoje não ama. Porque quem ama dá carinho e não desprezo. Quem ama não fica falando que ama e vai embora. Deixa o homem sentir a sua falta! E se não sentir, ele quem perde. – falei olhando a fofurééésima da Ju quase que pela primeira vez.

Sei que consegui convencê-la a ir para casa, ler um livro, ver um filme e deixar o Mateus em paz e mais tarde, mais lá um pouco para frente, dar uma de Jesus e amar o próximo.

Se fiz bem se fiz mal, eu não sei. Mas recebi um abraço mega carinhoso com muitas lágrimas. Ajudei a Ju a limpar o rosto e fiz com que ela me prometesse que pelo menos durante uma semana ia ficar na dela. Foi quando a Fê saiu da cabine.

Fê olhou para mim e disse:

– Amanhã te trago a Marina. A senhora vem sempre aqui neste horário?

Enfim, meninas, agora tenho uma nova função. Das 8:00 até 8:20h, para quem quiser, terças, quintas e sextas estarei no banheiro do CEFET ao lado da lanchonete para dar uma sacudida e aquela força para quem estiver na sofrência.

Faremos bonecos de vodu caso traga foto do crush.

Beijo obrigada de nada.

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Créditos do título: Lucas Avelar.

Voando como um Passarinho.

cefetbosque

Estava eu lendo em pleno bosque que fica no meio do CEFET no meu intervalo de tempo entre duas aulas. Na verdade, eu ainda trabalhava em silêncio. Quando gostamos do que fazemos nos tornamos escravos do que nos sustenta e nos sentimos felizes e condenados a não deixar de labutar mesmo quando repousamos embaixo das árvores numa manhã de inverno em pleno recreio. A despeito de ouvir mal, pude perceber com clareza vários cantos de pássaros invisíveis entre os ramos. Eu não sou dessas que sabem distinguir pelo assobio a raça do passarinho, digamos que jamais consegui ligar o nome à “pessoa”, salvos os Bem-te-vis e os pombos. Mas, confesso, gosto da minha ignorância neste e em outros determinados assuntos porque me parece que se soubesse associar um trinado ao pássaro que o emite perderia algo que se apreende sem o uso das palavras e que nenhum livro pode ensinar. Não sei descrever ao certo, mas aponto para alguma coisa da mesma natureza daquilo que passeia na memória da sensação de quando ainda éramos feto.

Observando aquela cantoria percebi que havia pelo menos uns quatro tipos diferentes de assobio. Além disso, o pipio se repetia depois de um breve intervalo. Será que eles conversam entre si mesmo sendo de raças diferentes? Por que repetem o mesmo assobio? O que será que significa para eles o silêncio? O que ocorre no intervalo de dois silvos? Uma reflexão? Há um bate-papo ou cada um canta para si mesmo? Se o barulhinho que fazem se repete, será que se trata de uma mesma pergunta a ser repetida indefinidamente? Algo como: Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?. E o outro responde: E eu lá sei? E eu lá sei? E eu lá sei?. Ou seria uma afirmação que reforça o amor e amizade? Estou aqui! Estou aqui! Estou aqui!, e o outro responde: eu também! eu também! eu também! Ou…

Vai que o que acontece no meio dessas árvores é o mesmo que ocorre aqui embaixo onde ninguém se entende e cada um ingenuamente acredita na objetividade de cada proposição dita quando coloca a subjetividade como objeto para o outro e ainda formulam sentenças esdrúxulas como esta? Vai que eles são como nós que monologamos com o nosso interior em forma de sons articulados em direção a um ouvinte que apreende cada frase de uma forma diferente da que nós experimentamos quando a liberamos? Falo isso porque acho que é impossível exprimir pela via da linguagem o que em nós existe já que não há palavras que o revele; por isso, a música, a poesia, a dança, a pintura, a arte de forma geral que representa, na minha opinião, o desespero do homem em se fazer entender. Ou…

Vai que, como se realiza com os seres humanos, é no silêncio que tudo acontece já que a linguagem é a maior fonte de mal-entendidos e que cada gorjeio seja apenas um sinal de pontuação ou uma necessidade de se confirmar que os outros estão prestando atenção?: não concorda?, está me entendendo?, não lhe parece razoável?… coisas assim.  Ou…

Vai que a frase esboçada em forma de assobio seja tão linda que é melhor que seja repetida cem mil vezes do que dizer qualquer outra coisa? Ou vai que eles só nomearam uma coisa e isso lhes basta? Nós, bobos que somos, que nem aceitamos que as metáforas possam ser mais reais do que a nossa própria existência ou o chão que pisamos, ignoramos tudo o que não tem nome e acreditamos somente naquilo que pode ser chamado, por isso, dicionários cada vez mais grossos e entendimento que é bom…

Enfim, lá fiquei no meio daquelas árvores a observar aquele bando de passarinhos sem saber classificá-los. A ausência total desse conhecimento permeado de nomenclaturas acabou me fazendo vaguear por tantas interrogações. Talvez nenhuma enciclopédia possa nos ensinar aquilo que só podemos aprender quando somos saudáveis crianças ou adultos ignorantes – como eu – que se deixam levar pela investigação contínua e infinita da natureza de seja lá o que for e que não leva a conhecimento algum.

Acabei perdendo a noção do tempo no meio de tantas divagações. Vejam vocês, fiquei voando voando e voando e ainda tive que sair voando dali.

Tal como os passarinhos.