Pra frente, Brasil? – Sobre a Copa 2022.

Estou aqui pensando na Copa que se aproxima. Antigamente, tudo era menos confuso. Enfeitar as ruas, usar a camisa da seleção e pendurar o bandeirão do Brasil na janela mostravam apenas uma conexão com uma festa mundial. 

O serviço público tinha problemas, nas escolas faltava estrutura, havia desemprego, havia corrupção em muitos lugares deste país mas… era a Copa. O Brasil ia jogar, era dia de festa e ninguém queria discutir quem era o culpado das mazelas desta bagaça.

Agora não. Agora tá tenso. 

Hoje a gente está discutindo –  a menos de um mês do início da Copa – sobre os sentimentos que devemos ter quando o Brasil estiver em campo.

Tanto para quem é da direita quanto da esquerda há uma dúvida sobre como proceder. 

Deste lado (que considero o correto da história), não sei como vamos nos comportar quando sair, por exemplo, um gol do Neymar. Nem sei se vamos conseguir torcer para que ele faça um gol. A felicidade de quem está ao lado dos que praticam violência política nos coloca num estado confuso ainda que essa pessoa faça um gol para o Brasil.

Vestir verde e amarelo é outra questão que tem sido discutida. Há quem diga que será o momento perfeito para resgatar a nossa bandeira. Um querido amigo que ama futebol comprou animado uma camisa verde e amarela no dia seguinte que Lula foi eleito. Gritou alegre: “essa bandeira é noossaaa!”. Falei com ele ontem perguntando sobre a sensação de vestir novamente a camisa com as cores da bandeira. A empolgação não mais se fez presente. Ele me disse que está com medo de ser confundido com quem canta hino para pneu, se pendura na frente de um caminhão ou um nazista. Minha tia que comprou também a camisa na empolgação disse que ficou a cara da Cássia Kis. “Criei ranço da blusa”, disse me oferecendo.

Do lado de lá, também não está fácil. 

Se o Brasil ganhar, vai ser um clima de festa que vai estragar, segundo disseram, o foco da “luta contra o comunismo”. Se por um acaso Neymar se machucar e o Brasil ganhar mesmo assim, Alexandre de Moraes será xingado como tem ocorrido até quando chove. Se o Brasil perder, vai ser derrota sobre derrota e não vão poder chamar as forças armadas para verificar se o jogo valeu. 

Fico pensando em todo mundo de qualquer espectro político se vestindo verde e amarelo e saindo pelas ruas exalando felicidade em dia de jogo. Como iam conseguir identificar quem é o cidadão de bem e quem é o cidadão de boa? Da minha parte, acho que podemos andar sim com o verde amarelo. Mas sugiro que seja em grupos e marchando para gerar memes. 

Enfim, bons tempos aqueles que a gente soprava uma vuvuzela verde e amarela e cantava emocionado o hino com a camisa da seleção antes que vários homens começassem a correr atrás de uma bola. Era um tipo de delírio que o esporte,  assim como o samba, nos permite: algo que nos anestesia pela alegria e não pela estupidez.

Falta menos de um mês para a Copa e ainda há gente que não aceitou o resultado das urnas. O comportamento de quem veste verde oliva também não tem ajudado.

Fica aí minha dúvida. Como todos juntos vamos pra frente, Brasil?

Expulsar é manter no mundo. Educar é transformar esse mundo. Uma breve reflexão nesses tempos difíceis.

Em tempos de tanto ódio, estamos também testemunhando comportamentos bastante violentos nas escolas. Grupos de jovens se unem para destilar preconceito, seja no pátio da escola, seja em um grupo de WhatsApp ou em uma live feita em alguma rede. Certamente, já deve ter chegado para você algum vídeo denunciando essas violências.

O vídeo mais recente que eu vi mostrava uma live no TikTok, feita por estudantes de uma das escolas mais conceituadas da capital gaúcha.

Reproduzindo o que, suponho, ouvem em casa, adolescentes proferiram sorrindo frases gordofóbicas, frases xenofóbicas contra nordestinos, ofensas contra professores e professoras de escolas públicas, pessoas pobres e pessoas que votaram no Lula de forma geral. Até o auxílio emergencial entrou na pauta desse vídeo.

Uma das adolescentes disse – rindo e de forma debochada – que o benefício de R$ 600, criado pelo governo federal para garantir renda mínima aos brasileiros em situação de vulnerabilidade durante a pandemia de Covid-19, daria para ela comprar um sorvete de uma marca específica citada e um papel higiênico folha dupla.

Não tem como não se indignar perante um discurso desses vindo de jovens em formação.

O fato de existir escola particular é uma razão forte (ainda que não seja a única) para que surjam falas preconceituosas como essa em alguns adolescentes. Há uma visão deturpada, somente por estar ali em um lugar de muito privilégio, de que o rico é necessariamente mais inteligente ou uma pessoa melhor. Fica nítido que há uma diferença gritante de classe. Se essa injustiça não for discutida do portão da escola para dentro, essa estrutura social vai parecer algo natural, porque assim está sendo tratada.

Assim como é um erro a existência de hospitais particulares, a existência da escola particular é um grande equívoco da nossa sociedade, ainda que haja exceções. No sistema educacional que temos, a escola particular não representa apenas uma opção para uma educação específica para certas comunidades (étnicas ou religiosas, por exemplo), por qualquer motivo que seja, mas na maioria dos casos representa privilégio e desigualdade de acesso. Por que uma pessoa merece ser melhor atendida do que outra? Poder pagar para um serviço é uma justificativa decente para a pergunta anterior?

Se estudantes que frequentam escolas particulares não forem estimulados a refletir sobre essa estrutura, o que estão aprendendo, afinal, para além do conteúdo “que cai no Enem”? E não me venha falar que educação vem de casa. Educação vem de muitos lugares, inclusive da escola.

Tem mais uma coisa que quero colocar aqui.

Brutos que nos tornamos quando estamos cheios de ódio, exigimos prontamente, como vemos nos comentários das notícias envolvendo esse vídeo, a imediata expulsão da escola de quem protagonizou o ataque e as ofensas.

Entendo o ódio direcionado a quem odeia, no caso, esses adolescentes. Mas, supondo que tanto preconceito seja aprendido no ambiente familiar, fico me perguntando onde (meudeus onde?) estudantes que foram expulsos de uma escola por se comportarem de forma odiosa irão enxergar a gravidade do erro que cometeram? Seria em casa – local onde ele encontra os seus espelhos? Seria em outra escola – possivelmente com a mesma estrutura que a escola que os expulsou?

Como educadora, sofro ao ver que a escola não conseguiu, em um caso como esse, ser um espaço de aprendizado efetivo e que tenha que recorrer à expulsão ou a uma punição que não ensina, pelo contrário: existem, como acompanhamos em inúmeros casos, grandes chances da punição aumentar o ódio no adolescente.

Insisto: se não for na escola, onde se dará esse aprendizado?

Penso que um lugar onde exista uma concentração de profissionais da Educação deva ser o local ideal para pensar em estratégias para que estudantes reflitam sobre o quão perverso foi o que fizeram.

Expulsar ainda é manter no mundo. Educar é transformar esse mundo.

Não é fácil. Eu sei.

Educar requer tempo. Compreender que há ritmos de crescimento e que não basta falar para ser ouvido.

Para que queiram nos escutar, temos que ter calma, criatividade, paciência e sabedoria perante esse grande desafio. E é necessário também ter muita sensibilidade, já que estamos, por vezes, fazendo jovens refletirem sobre valores equivocados que recebem, muitas vezes, da própria família. É normal esse conflito e, por isso, é saudável que crianças e jovens convivam em um espaço que permita e que estimule, nas mais diversas formas, o diálogo.

Educar movido pelo ódio é punir, e punir nem sempre (ou quase nunca) educa. Quando não vemos efeito imediato na educação movida pelo amor não foi porque erramos, e sim porque não tivemos tempo suficiente para acertar ou para ver a semente brotada.

Assim como o lixo colocado para fora de casa continua dentro do planeta, um cruel adolescente pleno de preconceitos com uma visão deturpada da realidade e expulso… enfim, esse adolescente expulso de uma escola seguirá dentro da sociedade. Continuando com a metáfora, é necessário não produzir tanto lixo e reciclar o que estiver ao nosso alcance, porque se livrar de algo simplesmente “jogando fora” não é possível, como bem sabemos.

Muita gente já me disse que não devemos ser tolerantes com intolerantes. Concordo com Popper, o filósofo que trouxe essa reflexão. Mas o que coloco aqui é anterior a isso: como fazer com que a pessoa entenda que está sendo intolerante? Como não produzir ou reduzir o surgimento da intolerância?

Para finalizar, antes que me julguem, sei da dificuldade e do quanto poderia ser cruel fazer com que a pessoa ofendida fosse obrigada a conviver com o opressor. Jamais sugeri isso, e tampouco sugiro isso com esse texto, porque creio que há inúmeras outras saídas para situações como essa, que não incluem maltratar ainda mais a vítima. Mas, para encontrar essas outras saídas, precisamos nos propor essa difícil reflexão.

A família educa e a escola também. Se ambas falham, qual a chance do real aprendizado acontecer?

Apenas refletindo aqui sobre tudo isso e compartilhando com vocês.

(Elika Takimoto – Professora do CEFET/RJ e deputada estadual PT-RJ)

Conte até 13

Ontem, em Copacabana, uma senhora muito maquiada e de cabelo feito amassou meu panfleto que lhe ofereci com carinho dizendo:

– Sou professora e candidata a deputada estadual. Interessa pensar no meu nome?.

Ela pegou, viu o Lula e disse:

– Interessa para fazer isso.

E amassou.

Contei até 13. Olhei bem para ela e disse:

– A senhora não deve se lembrar de mim porque mal cumprimenta o porteiro. Moramos no mesmo prédio. Eu sempre achei a senhora linda. Comentei com a vizinha do 202 que você devia ser modelo.

A senhora me olhou atenta mas ainda com ódio.

Continuei:

– De uns tempos para cá, comentei com seu Geraldo, nosso porteiro, que estava achando que a senhora estava doente. Perdeu o brilho na pele e seus cabelos estão sem vida. Agora entendo. Senhora, esse ódio está lhe fazendo muito mal. Não precisava ter amassado meu panfletinho.

Ela ficou em silêncio, aproveitei:

– Deus deve castigar certas pessoas tirando o colágeno mais rápido. Pode ser isso. Era só ter dito “não” para o meu panfletinho. Eu te ofereci. Nem te entreguei. A senhora pegou porque quis e porque é má.

Mas siga em paz.

Dei as costas e voltei a oferecer meus panfletos para outras pessoas ali em frente ao metrô da Arcoverde.

Olhei de rabo de olho.

Ela foi embora lentamente. Não mais com a pressa que andava.

Nunca a vi antes e não tenho ideia onde aquela senhora mora

E segui no amor. Estou com um pouco de crise de consciência. Mas foi o que saiu na hora. Não sou perfeita e posso ser cruel a ponto de fazer refletir quem amassa meus panfletinhos entregues com tanto carinho.

Sobre ser candidata em 2022

Aprendi muita coisa nos livros, mas a leitura nem sempre acontece somente quando se tem palavras as escritas.

Tenho panfletado nas ruas todo santo dia. Converso com pessoas que nunca vi na vida sobre quem eu sou e a importância de termos representantes-raiz da Educação em locais de poder.

Em 2018, fui candidata em um momento que o antipetismo tinha virado modalidade olímpica. De lá para cá, tivemos um governo perverso que armou o povo. Hoje, a população civil tem mais armas que a Polícia Militar e, vale observar, há muitas escolas públicas sem bibliotecas. Viramos o país da bala e não dos livros, conforme prometido.

Ainda que andar com blusa do Lula, atualmente, seja possível porque o clima esteja mais favorável para nós com o Lula livre, inocente e animado, o fascismo (que se sustenta pela vontade de trucidar o antagônico) avançou muito.

Sinto-me bem mais à vontade nas ruas hoje com o acolhimento que recebo. Mas o risco é muito maior em 2022 do que em 2018.

Aumento do feminicídio, das violências políticas, companheiros sendo mortos por não gostarem de Bolsonaro… Enfim, quando entrego meu panfleto com um sorriso, pode ser que esteja diante de uma pessoa extremamente violenta e que foi incentivada pelo atual presidente a ser agressiva.

E daí, cabe a leitura que hoje faço sem os livros por uma questão de ter medo mas, também, de ter a certeza de que esse sentimento não pode me imobilizar:

Se duas pessoas se aproximam e uma é mulher e a outra, homem, a minha preferência é entregar meu panfleto “Vote na Professora” para a mulher.

Se entre as duas, tiver uma pessoa nitidamente LGBTQIA+, vou sempre nela.

Entre duas mulheres, vou na que tem uma aparência mais humilde.

Se entre duas pessoas, uma dessas segura um livro, é para ela que ofereço o meu panfleto.

Entre uma mãe carregando um nenem e uma pessoa qualquer, vou na mãe.

Entre uma mulher asiática, uma branca ou uma preta, escolho quem esteja sem fone de ouvidos.

Entre uma pessoa com alguma deficiência visível e uma outra qualquer, busco me aproximar de quem passe por mais dificuldades nessa sociedade nada inclusiva.

É difícil eu errar, mas não é nada fácil acertar também. Há, obviamente, homens altos e marombados muito educados comigo, gente que tira o fone para me ouvir atentamente, pessoas que leem muito, mas somente o Olavo de Carvalho e senhorinhas fofas que pegam meu panfleto e amassam na minha cara.

Gosto quando erro porque revejo meus pré-conceitos. Como professora, admiro essa didática bruta que só a realidade domina.

Sei que nem sempre acordamos trabalhados na simpatia e com uma vontade danada de pegar panfleto de uma candidata que não conhece.

O ponto delicado é a impossibilidade de conseguir diferenciar – com esse tipo de leitura dinâmica – uma pessoa cheia de consciência de classe que acorda virada na Jiraya de um fascista feliz e sorridente porque, por exemplo, negou comida para uma pessoa com a blusa do Lula.

Escrevo tudo isso para dizer a vocês que não tem sido fácil me apresentar como professora e candidata tendo o Lula no meu peito. As fotos que tenho postado demonstram alegria e, de fato, há muito sentimento bom e trocas inesquecíveis nas ruas.

Mas tenho, em todo o tempo, a consciência do risco que corro dada a exposição que escolhi fazer. Andar sob um constante estado de alerta dá um tipo de cansaço bem específico. Falta uma palavra em português para definir esse sentimento.

A cada companheiro que se vai por acreditar no mesmo que eu, faço um esforço para não embrutecer.

Quando dizemos que o amor há de vencer, ele não ganhará fácil porque o maior obstáculo está dentro da gente.

Escrevo esse texto na estrada. Estou indo panfletar em mais um reduto bolsonarista. Semente de Marielle que sou, hei de florescer em terras áridas.

Peço com todo carinho que reguem quem está pronta para a chegada da próxima primavera.

Em tempo, sou Elika Takimoto, candidata a deputada estadual pelo PT/RJ e meu número é 13021.

Lembram disso?

Estou aqui no quinto dia de isolamento observando o trabalho que o coronavírus está tendo dentro deste corpo com três doses de vacina. Tosses, cansaço e dor de cabeça somados a um calafrio aqui e um intestino estranho ali. Nada demais. Tenho vencido do meu jeito e no meu tempo. A mente, se deixar solta, me carrega para hospitais e cemitérios. Fico pensando em 2020 e na quantidade de pessoas que não conseguiram respirar e nas outras que faleceram sem nenhum familiar ao lado. 

Daí, fico triste demais, começo a chorar nesse sofá cheio de pelo da minha gata.

Para me distrair, vou ler as notícias do dia. 

Não ajudam, como vocês bem sabem.

E fico em casa olhando para o teto tentando me amparar. Há um mundo sendo destruído lá fora e eu estou aqui com covid. Se cada vez que eu tossisse, o preço do combustível baixasse um centavo, já estaríamos em 2024.

Resolvi me proteger de pensamentos ruins lembrando de coisas boas como sempre fui aconselhada pela minha avó.

Peguei-me tentando discar rápido naquele telefone cinza de disco para falar com o Bozo. Tinha uma brincadeira do jogo da memória e o Bozo virava todos os números (era do 1 ao 20 – com 10 pares de desenhos) que ficavam na parede durante uns cinco segundos. Depois desse brevíssimo tempo, o Bozo desvirava. 

Se a gente acertasse tudo, ganhava uma bicicleta Caloi ou Monark, não me lembro qual das duas, mas só podia ser uma delas porque eram as únicas que existiam na época.

Eu tinha um irmão mais novo e uma irmã mais velha no tempo do Bozo. Muito tempo depois, veio a Lyli, a rapa do tacho da minha mãe, como ela, carinhosamente, sempre diz. Mas a Lyli já era Xuxa para cá. Estou no Bozo. Lyli não era nem zigoto. Então… 

Assim que o Bozo virava as figuras para a gente memorizar, nós, eu e meus irmãos, que juntos tínhamos seis mãos e seis pés, ficávamos com o rosto colado no vidro da televisão e colocava as palmas da mão e os pés em cada par de figuras que Bozo mostrava. Assim, com muita vantagem e astúcia, tínhamos rápido o gabarito do jogo de memória. Era só ligar e o Bozo atender.

Daí era o desespero de girar aquele disco do telefone bem rápido. Sempre dava ocupado. Lembro que o futuro estava chegando com o telefone de botão em muitas casas e a gente ficava pedindo pelo amor de deus para papai comprar um aparelho mais moderno porque estávamos sendo prejudicados em relação às demais crianças do Brasil.

Quando era o jogo de apostar em qual cavalinho ganhava a corrida, cada um escolhia um: preto, branco ou malhado. Era uma gritaria para ver qual cavalinho de um brinquedo tosco chegaria primeiro.

Pensando em coisinhas assim como a infância e a ingenuidade, resolvi escrever sobre essas lembranças já que a escrita sempre me aliviou desses apertos que a gente sente no peito de vez em quando. É sempre bom revisitar o pretérito mais que perfeito.

Já estou tossindo menos e me sentindo bem melhor. O olfato se foi hoje, mas disseram que ele volta rápido e sou dessas de acreditar quando me dizem que ele vai voltar em outubro.

Sorrindo para nosso futuro – como fiz há pouco com o meu passado – coloco esse ponto final.

Está tudo bem ser desse jeito

Ilustração de Ryan Garcia

Tenho surdez e uso próteses auditivas desde 2013 quando decidi adquiri-las para enfrentar a defesa no doutorado. Fiquei com medo de ser prejudicada por não conseguir ouvir direito a pergunta ou as críticas da banca.

No dia que experimentei as próteses pela primeira vez, chorei de soluçar. A fonoaudióloga tentou me acalmar. Disse que eu me acostumaria. Sou míope e sempre usei óculos. Pensei, antes de colocá-las, que ouviria com as próteses como vejo com as lentes.

Ledo engano.

Ouvir com aparelhos auditivos não é o mesmo que enxergar com óculos. O som parece todo microfonado como se saísse de um radinho de pilhas.

Mais uma coisa que você não sabe: um ouvido bom escuta em infinitas frequências. Quando apresentamos surdez moderada, não perdemos em todas elas de forma igual. Por mais modernos que sejam os aparelhos, eles não conseguem amplificar somente o que nos foi subtraído por doença, genética ou acidente. Resultado? Ouvimos com as próteses alguns sons muito altos e distorcidos.

Não são poucos os casos de pessoas que desistem de usar aparelhos e muito menos é pequeno o número de seres humanos que perdem a audição cedo. Então, é muito comum pessoas como eu se isolarem.

A surdez moderada é uma deficiência que incomoda muitas pessoas com as quais conversamos. Pedimos para repetir a frase. Percebemos que falar a mesma coisa duas vezes está longe de ser algo prazeroso. Irritamos muita gente por não ouvirmos bem e meu deus como é triste alguém se sentir importunado por algo que não é a nossa culpa. Além disso, viramos motivos de piada quando compreendemos algo atravessado.

Com os aparelhos, entendemos melhor. É, porém, extremamente cansativo ouvir de forma amplificada ruídos irritantes. Se estou com as próteses na rua e, por exemplo, passa um carro de bombeiro ao meu lado com a sirene ligada, sinto aflição e angústia como aqueles que se deparam com um rato correndo ao seu encontro.

Encontrei com uma conhecida que também colocou próteses recentemente e ela me narrou o quanto o barulho do chinelo arrastando no chão está deixando ela descompensada.

Tenho terminado o meu dia exausta por ter que lidar com tantos sons perturbadores por conta das próteses auditivas. A única vantagem é que posso tirá-las. Ler no silêncio tem suas vantagens. Dormir, muito mais.

Não vou à praia e nem à piscina há anos porque meus aparelhos não são à prova d’água. Quando chove e estou na rua, tiro minhas próteses para protegê-las e entendo muito menos qualquer frase que seja dirigida a mim. E se estou com elas em um lugar fechado e seguro quando lá fora cai uma tempestade, o ruído da chuva de fundo ganhou outra conotação que não tem nada de agradável.

Tenho surdez, mas escuto. Há quem tenha surdez severa, quem nunca tenha ouvido um som, quem já ouviu e perdeu toda a audição em algum acidente, quem não ouve de um ouvido, enfim, há de tudo e sei que não somos poucos na sociedade.

Falar “eu sou surda” não é uma coisa simples em terra de ouvidos perfeitos e pessoas impacientes que se acham perfeitas. Há muito mais gente com surdez do que vocês possam imaginar. O preconceito faz com que elas omitam a dificuldade de ouvir.

No mais, as próteses são caríssimas e, mesmo sendo fornecidas pelo SUS, a fila é longa. Para ter aparelhos mais discretos e modernos, é necessário pagar muito por eles.

Sigo me adaptando como fazem as pessoas inteligentes (Beijo,Piaget).

Estar nas ruas, nas salas de aula, em manifestações, no palanque ou em plenárias é um desafio que tenho enfrentado, modéstia à parte, com certa bravura.

Por que estou contando tudo isso? Porque outro dia a minha caixa de aparelhos caiu no metrô quando fui pegar algo na minha bolsa. Eu não estava com eles porque o barulho do metrô é chato e não estava conversando com ninguém. Uma pessoa catou tudo que tinha se espalhado no chão e me devolveu.

Morri de vergonha na hora.

Chegando em casa, refleti sobre o que passei. Não posso me permitir me sentir mal por ser como sou.

Contar para todo mundo o que aconteceu e como tenho lidado com essa deficiência é uma forma que encontrei de me perdoar por ter desejado me esconder por um momento. Prometi a mim mesma, desde o primeiro dia que coloquei esse troço nos ouvidos, que não ficaria constrangida por ouvir com ajuda.

Sou surda, uso aparelhos auditivos e está tudo bem ser desse jeito.

Senhora Liberdade

Tem sido cada vez mais recorrente e começo a achar tudo curioso.

Geralmente é quando estou assistindo um filme, uma novela ou um seriado e me pego admirada com a beleza de uma senhora. Nossaaaaa que senhora linda. Muda a cena. Ela entra de novo e eu nooossaaa que beleza…

Daí, penso: “Quando eu ficar mais velha, quero ser assim”.

Depois, me lembro de verificar a idade da atriz. Vou investigar e pá. A atriz é da minha idade ou mais nova do que eu. Tóin tóin tóin (sons de martelos batendo na minha cabeça como nos desenhos do Pica Pau).

Percebi que mesmo me olhando no espelho diariamente tentando amansar meus fios grisalhos ou levantando com um dedo uma bochecha caída, esticando o pescoço para esconder a papada, encolhendo o barrigão mole, enfim, ainda assim, me sinto como uma menina de 30 anos. Só me dou conta que a idade da minha menina aumentou quando tenho que lidar com algo externo a mim, mas que também me pertence, como as estações.

O susto de saber que aquilo que achei bonito ou feio no outro está presente em mim é didático. Ele me explica que também sou definida.

Pareço embaraçada e apocalíptica, mas é porque falar de sentimentos é tão difícil quanto fazer um círculo perfeito à mão livre. A gente visualiza bem, sabe como ele é, mas não consegue enviar para os dedos o comando certo. Eu sei como sou afetada, só não consigo nomear.

Capta as entrelinhas.

Quando não me enxergo no que vejo, ou seja, quando a forma de existir do outro não me afeta, sinto que sou fluida como os gatos que cabem em qualquer recipiente, indefinida por essência e do mundo por natureza. Percebo-me de outro material. É como se a luz passasse por mim.

Assimilo que não preciso ser imaginada ou projetada para existir.

Compreendo melhor o infinito.

E tudo isso acaba ao ver no outro a beleza, a feiúra e a esquisitice das quais também sou feita e vítima. Tão alvo do tempo.

A consciência acorda com um despertador estridente no meio de um sonho bom.

Sinto-me mensurável quando percebo-me aparente.

Outro dia, ri alto e sensualizei fazendo polichinelo pelada para mostrar minha disposição para o marido. Senti as muxibas subindo e descendo, mas visualizei tudo em câmera lenta em uma floresta de girassóis. E na minha cabeça tudo estava tão bonito quanto uma biblioteca.

É como se eu não existisse ao mesmo tempo que me sentia tão viva. Agitei para além de mim mesma.

Quando isso acontece, viro uma senhora, mas não dessas que começam com “dona isso” ou “dona aquilo”. Torno-me a senhora liberdade.

Livre como tudo que é bastante percebido mas que jamais foi olhado.

Voar planando com essa paz tem sido, para minha sorte, algo também muito recorrente.

Seu Paulo e Ana

Ando esquisita ultimamente. E “esquisita” aqui corresponde a algo fora do meu padrão e não tem juízo de valor. Mesmo porque sempre gostei de coisas esquisitas e amo conversar com gente esquisita.

O fato é que não sei dizer se o que está acontecendo comigo é bom ou ruim. Creio que ninguém, nem mesmo minha terapeuta e minha mãe, sejam capazes de dar a resposta correta já que só vivemos no rascunho.

Estou enjoando de tudo.

Da minha casa (que moro menos de três anos), da minha sala (que tenho há 20 anos), do meu cabelo (que cortei há três meses), das minhas roupas, das panelas, das toalhas,… tudo me incomoda.

Pode ser um sinal de desapego já que sempre tive muito medo de mudança e tenho superado isso não sem muita dor. Tudo que comprava e toda a estrutura e relações que ia construindo na vida achava que era para sempre.

Sofria quando era subtraída.

Pode ser que essa irritabilidade tenha a ver com a menopausa que se aproxima. Ou talvez mercúrio retrógrado tenha lá de fato alguma influência neste meu universo tão apegado às verdades científicas.

Pode ser que o excesso de dor muscular que tenho sentido por permanecer por dois anos sentada dando aula e fazendo lives, zooms, meets e palestras tenham mexido com minha paciência em relação a aparência de tudo que me rodeia e que é refletido no meu espelho.

É também possível que seja um sinal de necessidade de renovação, de crescimento ou de limpeza espiritual. Bem se sabe que o externo que nos habita reflete muito do nosso interior que habita nesse externo.

Fato que chamei um marceneiro para arrumar algumas coisas em casa, algo como fazer mais estantes para dar conta dos novos livros (os velhos jamais me enjoam) e uma sala nova com direito a um sofá que acomodasse melhor minha lombar.

Seu Paulo olhou meus móveis.

Como disse anteriormente, tinha mania de comprar coisas que duram para sempre. Tanto a estante quanto o sofá da sala são feitos de madeira maciça, o que quer dizer que custa os olhos da cara, ou seja, um rim.

Expliquei a ele que queria me desfazer de tudo aquilo e substituir por algo mais moderno e mais clarinho. Queria mudar de cor. Sofá lilás, estante branca, algo assim.

Gente boa que é, sincero como são os roqueiros da velha guarda, honesto como os que tatuam o corpo todo, seu Paulo me disse que não veio a esse mundo para bater palma para maluco.

Se eu quisesse me desfazer de algo tão precioso, seu Paulo disse que não faria parte dessa desventura. Aceitou fazer outras coisas que eu estava precisando, mas se recusou mexer no que mais me incomodava por enxergar algo diferente de mim e em mim. Por perceber que era um ser em desequilíbrio, assustado disse não.

Semana passada estive na Ana, quem me recebe em sua própria casa no Cosme Velho para cortar meu cabelo já que, como eu, tem pavor de salão de beleza.

Para mim, sempre foi um sacrifício ter que ir ao salão. Levo livros, provas para corrigir enquanto o cabelo se hidrata e textos para redigir. Mas quem disse que consigo? O ambiente conspira sempre contra minha concentração. Saio de lá como aqueles que se despem de uma roupa apertada.

Nada contra quem vai e gosta. Mas eu nunca curti. Gosto de conversar com quem não conheço, mas nem isso consigo fazer em salão de beleza. Fico vendo a escova de uma, as cores parecidas dos esmaltes, a descoloração da outra, os produtos nas prateleiras, os diversos tipos de tesouras, as madames fazendo os pés, as pedicures de óculos para vista cansada em posição nada boa para coluna, enfim, tudo me distrai e minha mente se torna improdutiva até mesmo para um diálogo sem muitas pretensões.

Some-se a isso o fato de eu usar próteses auditivas. O barulho de televisão com apresentadores animados somado ao do secador de cabelo quando passam por um amplificador enfiado na orelha é algo tão perturbador como querer dormir perto de uma obra.

Daí, descobri a Ana que, além de cortar meu cabelo, faz com que eu me distraia de um jeito que gosto.

Ao chegar lá semana passada, falei que estava com calor, incomodada com a juba no meu pescoço e que era para ela meter a tesoura em tudo. Sem pena.

Ela olhou para ele e me perguntou o que estava acontecendo já que o cabelo estava ainda no corte e super bonitinho. Falou, com a paciência de quem compreende muita coisa, que eu podia usar um rabo de cavalo nos dias quentes.

Perguntou se eu estava achando meu corte feio. Respondi que não. Adorei de verdade e estava feliz com muita gente elogiando.

Ela, então, com a mesma sabedoria do seu Paulo, se recusou a atender meu pedido. Disse que daqui a alguns meses eu posso voltar lá, mas que não via necessidade alguma de mexer em algo que está muito bom.

Como disse no início, não sei se isso que estou sentindo seja algo positivo ou negativo. Não sei se estou sendo impulsiva ou madura.

Às vezes, fazemos coisas com muita calma e, ainda assim, nos arrependemos. Muitas vezes, tive dificuldade de me desapegar de coisas que só me faziam mal.

Eu daria a minha sala para um casal de amigos que está casando agora e que sempre a elogiou. Estava disposta a comprar algo bem mais barato para mim.

Não sei qual seria o efeito de uma sala nova e um cabelo curto nessa pré menopausa ou pós três vacinas. O arrependimento é sempre um risco. Disposição para corrê-lo é o que parece estar a mais dentro de mim, a ponto de assustar quem com ela podia lucrar.

Consegui trocar as cores das minhas panelas que estavam manchadas e velhas. Com isso, me animei em cozinhar novamente. As toalhas foram trocadas por outras melhores, mas não tomo mais banho por isso e sinto saudades das que me desfiz.

Está tudo confuso como a vida é quando estamos em pleno movimento.

No meio desse furacão de ansiedade, irritabilidade, vontade de sair correndo misturado com o desejo de ficar em uma sala de outra cor, no meio dessa coragem ou insanidade de estar pronta para raspar a cabeça, algo que me fez muito bem, enfim, de fato e com certeza, aconteceu.

Seu Paulo e Ana, na dúvida, e sem ousarem arriscar a me fazer algum mal, agiram como fazem os seres que valem muito. Os dois, com duas semanas de diferença, fizeram com que eu respirasse, refletisse e, enfim, fizesse algo que há muito tempo não fazia: escrever sobre mim mesma.

Ano passado eu morri, mas em 2022 eu não morro.

Último dia do ano. Gostaria, antes de qualquer coisa, de agradecer a vocês pela companhia. Tem sido um dos piores momentos da nossa história. Estamos lidando com um vírus e com um verme ao mesmo tempo.

Assim como em 2020, em 2021, eu escrevi muito pouco e li menos ainda. A ansiedade é inimiga da literatura. Neste final de ano, resolvi encarar isso. Vejam vocês, até ler virou uma forma de resistência. Consegui, agora em Dezembro, ler 5 livros que vieram para minha mão autografados e dados como presente por gente querida. Já me sinto bem mais forte porque, para além do conteúdo adquirido, venci a mim mesma. Bem se sabe o quanto os nossos monstros internos são poderosos.

Ainda assim, tem sido muito difícil. Não tem como esquecer que temos um presidente que durante três anos, em nenhum momento, seja na pandemia, seja em desastres ou tragédias humanitárias, seja em qualquer situação que signifique prestar solidariedade à vida humana tenha feito qualquer gesto. É muito difícil viver em um país cujo presidente não demonstra nenhum sentimento em relação à dor do próximo e seja contra vacinar nossas crianças.

O Sul da Bahia e outras regiões do Brasil pedem socorro. Milhares de pessoas estão sem casas, municípios desapareceram, crianças, pessoas idosas sentindo frio e fome e, sabendo disso tudo, Bolsonaro faz questão de mostrar como está curtindo suas férias em um jet-ski e brincando de carrinho em um parque de diversões. Eu não estou inventando isso. Ele próprio faz questão de mostrar isso em suas redes.

Bolsonaro não nega – verbalmente e em gestos como esses – o seu imenso desprezo às vidas das camadas populares. Por quê? Porque o seu eleitorado-raiz exige isso dele. Não são a maioria, mas são muito barulhentos e, meodeos, como irritam…

Já falei por aqui que tenho um certo ranço da palavra “resistência”. Como professora de física falo sempre na “força de resistência” e explico que ela é sempre menor ou igual à força que provoca o movimento. Sei que a conotação social é outra, mas tenho” memória desafetiva” com essa palavra. E fomos, em certa medida, durante esses três anos condenados a reagir. Quando nos atacam, seja verbalmente seja com uma pedra, usamos nossa energia para a defesa, nossas mãos para protegerem o nosso rosto e isso impossibilita qualquer possibilidade de fazer outra coisa como segurar um livro ou escrever, por exemplo.

Estivemos durante esse tempo com nossa mente e nossas mãos ocupadas defendendo professores e professoras, profissionais de saúde, mulheres, indígenas, pretos e pretas, defendendo o direito à vacina, o direito de amar quem quiser, o direito de ser quem quiser. Chegamos a exaustão de tanto falar o óbvio.

Resistir não quero mais. Existir será meu verbo. Já dizia em plena campanha de 2018…

Para tanto, ou seja, para agir, é necessário entender uma coisa: o quanto o ódio nos mobiliza (ao mesmo tempo que nos paralisa) e por que precisamos evitá-lo.

Primeiramente, saber que somos reféns e estamos somente reagindo é um começo.
Entender que estamos sendo manipulados é um caminho para sairmos dessa prisão. Bolsonaro não está brincando de carrinho no Beto Carrero enquanto milhares de pessoas estão desabrigadas porque é um perverso “apenas”. É estratégico gerar esse ódio porque enquanto falamos mal dele especificamente não atacamos seu programa econômico, seus projetos inexistentes para os reais problemas do nosso país e, principalmente, não nos organizamos internamente como deveríamos.

O modelo que propõem já foi visto na história: é o de um povo etnicamente puro. Por isso, eles apelam diariamente para o perigo de múltiplas religiões e culturas diferentes. Elas devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo puro e “cristão”.

Daí vem essa obsessão em relação a pureza nas artes, na política, nas escolas, nas casas, nas igrejas… “Pureza” aqui está sendo usado como sinônimo de homogeneidade, ou seja, exclusão efetiva da diversidade. E bem se sabe o quanto isso é impossível até mesmo entre duas pessoas, quanto mais em uma sociedade.

Para conseguir esse impossível, eles avançam nos irritando porque enquanto odiamos, não pensamos direito.

Uma democracia comporta muito bem pensamentos divergentes, religiões diversas e múltiplas culturas, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares para todas as pessoas. É necessário explicar isso para o maior número de pessoas: divergência de ideias e de credos não pressupõe desarmonia. É possível viver respeitando o diferente.

O que estou querendo dizer é que esse ódio que sentimos e a reprodução que fazemos das falas perversas de Bolsonaro e seus pares fazem parte do projeto deste governo que é normalizar todo esse ódio pelo tanto que o repetimos.

Ficamos mais frios, mais burros, mais apáticos porque fomos manipulados por esse ódio e passamos, de um jeito ou de outro, a normalizá-lo.

Para 2022, devemos, com todas as nossas forças, desde o primeiro dia, assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, denunciando e explicando o perigo que ele nos representa sem, contudo, fazer propaganda para eles.

A luta é infinita mesmo. A História está aí para mostrar que não estou delirando. Por isso, não podemos nos dar o luxo de dizer que cansamos ou desistimos. Tudo, ao final, se resume ao que você fez com a sua vida: ajudou os mais vulneráveis ou fingiu que eles não existem?

O futuro é agora e os outros somos nós mesmos. A responsabilidade é de cada pessoa neste minuto. Para partirmos para o coletivo, precisamos ter essa consciência individualmente.

Para nos curarmos desse ódio (que, de fato, nos adoece), precisamos nos lembrar sempre de que somos maioria e só o que nos falta é um pouco de organização. Não somente nas redes. Falo, principalmente, nas que exigem a presença, o corpo, o olhar e o sorriso mesmo que seja por trás de uma máscara.

Não há nada que eles temem mais do que pessoas que se unem. Por isso, debocham sempre quando vamos para as ruas ou tentam nos colocar medo para que fiquemos em casa e não nos mobilizemos.

Antes de terminar, uma observação: de março a dezembro de 2021, nada menos que 23 decisões judiciais inocentaram o presidente Lula ou anularam processos forjados contra ele e seus familiares.

Lula trabalhou neste ano com a disposição de um presidente decente. Conversou com grandes lideranças pelo mundo e, principalmente, aqui dentro. Foi convidado para dar palestras por várias universidades, enquanto, o máximo que o Bolsonaro conseguiu foi participar do programa do Ratinho.

Eu sei que não tem comparação, mas é sempre bom lembrar que estamos prestes a ter Lula de volta e do quão gigante ele é.

Mais uma vez, muito obrigada por terem ficado por aqui e compartilhando minhas dores, minhas tímidas alegrias no meio de tanto luto e meus devaneios.

Parafraseando Belchior, ano passado eu morri, mas em 2022 eu não morro.

Desejo a vocês um presidente que se sensibilize com a fome e um congresso que nos represente.

Desejo a vocês um país melhor e saibam que estou na linha de frente desta luta. Contem comigo porque estou contando com vocês.

Que neste ano que está chegando, o Brasil volte a ser de todas as pessoas.

Feliz 2022, gente!

“Você é a Elika?”

Vim passar o Natal em Brasília com o Pipo que não vejo há um mês. Assim que entrei no avião, me ajeitei e comecei a ler, uma comissária de bordo veio falar comigo.

“Você é a Elika?”

Levei um susto. Acho estranho ser reconhecida por aí. Sempre que isso acontece me sinto a Beyoncé de Madureira. Tenho a sensação de que meus cabelos ficam esvoaçantes e me vejo nas alturas que é onde eu estava mesmo.

Disse que sim, sou eu.

Daí, ela ficou muito feliz e eu com aquele misto de sentimentos que tinham um tanto de perplexidade, felicidade e muito de reflexão vendo alguém estar tão feliz em me ver. Seja lá o que for, imediatamente a reação foi abraçar como fazemos com as grandes amigas que encontramos por aí.

Ela disse que me lê sempre. Parou um pouco e me perguntou o que eu estava lendo.

Abre parêntese:

Uma vez, fui entrevistada por uma mulher linda e mega inteligente chamada Gaia e ela me fez uma pergunta:

“Qual a pergunta que nunca te fizeram e você gostaria que tivessem feito?”

Sempre senti muita falta das pessoas perguntarem o que estou lendo. Quando estamos com um livro, sempre tem uma história para contar de como aquele livro chegou nas nossas mãos e como está sendo a nossa interação com o conteúdo.

As pessoas perguntam por que diabos não pinto mais meu cabelo, mas não estão nem aí com o que leio. Haja. Aliás, resolvi ficar mais natural possível depois que li um livro.

É como disse Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao tamanho normal”.

Fecha parêntese.

Falei sobre o livro (queria ter falado mais, mas o avião é um lugar estranho para ter esse tipo de conversa no corredor). Depois, tiramos fotos, ela disse que sempre votou em mim, que a família toda fechou sempre comigo, que vai votar em mim de novo e que adora o que escrevo. Agradeceu por tudo que não tenho exatamente ideia do que seja.

Seguiu o voo.

Eu estava sentada lá atrás de forma que fui uma das últimas a sair do avião. Estava doida para me despedir da comissária que me lê. Assim que passei pelo meio da aeronave, lá estava minha amiga dando tchau feliz. Não pensei duas vezes. Abracei forte e era a vez de eu devolver tanto carinho.

Falei no seu ouvido:

“Amiga, muito obrigada. Estaremos para sempre juntas. Lula vai vencer e teremos um país muito melhor. Conte comigo para o que precisar.”

Me afastei um pouco. Coloquei a mão nos seus ombros e olhando bem nos olhos dela que estavam acima de uma máscara PFF2 como a minha, falei:

“Amei voar com você!”

E taquei-lhe um outro abraço emocionada como fazem aqueles que se despendem de uma pessoa querida.

Fiz o L de Lula com a mão discreta colada no peito esquerdo e segui caminhando em direção à cabine do piloto (que é por onde a gente sai).

Lá na porta da saída quem encontro?

A comissária que veio falar comigo assim que decolamos e estava ali esperando para se despedir de mim.

De máscara, cabelo preso e uniforme não consegui identificar que a outra no meio do avião em pé dando tchau agradecendo feliz para todo mundo que saía não era a minha amiga, gente.

E, desse jeito, cheguei em Brasília.