Meu Enredo. Minha história.

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– Então, Elika, qual é o seu enredo? – perguntou-me a psicóloga.

Ontem, na minha terapia, houve um momento em que saí do meu corpo e me peguei analisando a profissional e sua paciente. A analista vinha com perguntas certeiras e quando menos esperei já estava revivendo fatos da minha infância. Isso é uma técnica, pensei fora de mim, esperta que sou, ao observar as minhas reações e o quanto tudo daquilo fazia sentido. Certamente, ela faz isso com todos que entram ali, continuei avaliando a terapia quando dirigia voltando para casa.

Saquei qual é a parada toda. Entendi tudo: somos todos loucos e extremamente infantis até morrermos ou entrarmos em uma psicoterapia. Eu não sabia direito para que servia fazer análise até ontem. A gente faz psicoterapia, muitas das vezes, porque a maneira como estamos nos recordando das coisas não nos liberta. Nossos problemas, definitivamente, não vêm de fora. Aquele velho clichê “a paz está no nosso interior” tem lá suas razões de ser; e elas são nossas memórias, nossas lembranças, tudo aquilo que recordamos e como o fazemos. Assim como a paz, o mesmo podemos dizer do inferno que carregamos. A quietude (ou o tormento) se deve à maneira como nossas recordações são realizadas. Detectar isso não é tornar a solução do problema simples, muito pelo contrário, mas já é um avanço entender o que nos deixa tão angustiados, assustados, em pânico, tristes, inquietos e esperançosos. Driblar as recordações mal recordadas é que são elas…

Seu suquinho de uva caiu sem querer na mesinha do lanche e a tia brigou muito com você, te humilhou na frente dos coleguinhas. Sua irmã ficou com o Eduardo, um rapaz que você era apaixonada-louca-de-amor e ainda contou para ele que você tinha cecê. Sua mãe pouco se interessava pelo que você fazia, mas com suas irmãs, a mais nova e a mais velha, ela se emocionava com frequência por qualquer coisinha como a primeira menstruação, por exemplo. Seu namorado, o primeiro com quem você transou e se abriu de todas as formas físicas e metafísicas, quem você confiou e que te jurou amar para sempre, te abandonou aquele bandido depois de três anos de namoro e você segue decepcionada com todos os homens. Seu irmão mais velho tem um lindo álbum de fotos impresso e você tem suas fotos de infância em um HD antigo que seus pais nem sabem onde estão; seu irmão gosta de te lembrar desse fato e ainda acrescenta que você foi encontrado na lata do lixo. Você se perdeu quando criança no meio da multidão em pleno Carnaval e seus pais demoraram para sentir a sua falta. Aquela bicicleta com que você sonhava em ganhar de presente de seu pai de Natal virou um kit “O pequeno barbeiro” com tesoura, navalha, pente e máquina de cortar cabelos e ainda por cima tudo de plástico! Todos os seus amigos ganharam a tal bicicleta Monark naquele ano. Menos você. Na festinha do dia das mães da escola, todas as mães de seus coleguinhas deixaram de ir ao trabalho para ver seus amiguinhos dançando, só você não foi visto e aplaudido por sua mamãe.

Todas essas situações vira e mexe são lembradas e cada vez vão ficando mais fortes, sempre muito nítidas, ganham a cada recordação mais detalhes que nem sabemos se, de fato, estavam todos presentes quando tudo aconteceu… Daí que, louco que somos, vamos substituindo os atores, mas os personagens e a historinha se mantêm os mesmos. Quem é agora o Lobo Mau? Quem é o Caçador? Cadê o Príncipe? Quem faz o papel de Mãe? E de Pai? Oras…

Vamos considerar que você superdimensionou as falas da tia e que seus amiguinhos no jardim nem ouviram a tia chamando a sua atenção porque estavam certamente brincando e roubando merenda do coleguinha. Aquele rapaz que sua irmã ficou? Nem era tanta coisa assim para você! Depois dele você amou intensamente tantos outros e sua irmã namorou Eduardo por meses e sofreu quando ele terminou com ela, nem foi um capricho dela… Venhamos e convenhamos, fazer uma festa para cada menarca (primeira menstruação) de três filhas é dose. A mais velha já vai ensinando para a mais nova o que fazer. E a caçula ficou menstruada com dez anos, algo que choca até quem não tem nada com isso. Três anos de namoro e ainda fala que deu errado? Por que cada ano de namoro tem que significar mais tempo investido e não vivido e experimentado?  De onde surgiu essa ideia? No mais que príncipe mané príncipe. Ajuste o foco, criatura! O rapaz é um ser humano que foi seu companheiro da melhor forma que conseguiu e teve o maior cuidado para terminar o namoro. Tire o peso do homem, coitado. Aquele álbum impresso de seu irmão mais velho feito na De Plá da esquina é a coisa mais cafona que existe e, na época, estava todo mundo fazendo. Você ficou menos de dez minutos perdido e seus pais quase enlouqueceram quando deram por sua falta. Até hoje quando a sua mãe lembra disso o coração da coitada acelera. Somente dois amigos seus ganharam uma bicicleta de Natal naquele ano e nem Monark era. E o Kit Barbeiro era o brinquedo mais bombado do momento. Um monte de mãe sempre falta a comemoração de dia das mães. De vinte alunos, doze mães não puderam comparecer naquele dia. Fala sério!

Não é para apagar nada. Não fazemos terapia ou analisamos os fatos sozinhos para tentar esquecer ou exorcizar essas lembranças que nos perseguem, que nos atordoam… não é renegar tudo, suprimir, dessaber. Não precisamos nos esquecer desses ocorridos em nossas vidas. Precisamos tirar o peso que colocamos neles e lembrar de tudo de uma outra forma. Entender que o que foi narrado pode ser feito de várias formas diferentes pelas pessoas que ali estiveram presentes no momento já é um grande passo. Assimilando essa ideia, a lembrança vai ficando desembaraçada, ágil, ganha movimento, vai perdendo a gravidade e as vezes até voa da memória para sempre de tão leve que fica.

Mas daí, volto a analisar-me de longe tendo outras divagações em cima de relatos de traumas de muitos amigos. Reformular essas memórias assim por nós lembradas… não seria muito perigoso? Vai que o que se desprende era o que sustentava todo o edifício que somos… Eu acreditei em Deus um dia, e por acreditar, Ele já existiu… Quantos personagens como Deus mataremos se nos tratarmos devidamente?

Não sei se quero viver em um Universo com tudo fazendo sentido. Lidar com pessoas e um mundo cheio de verdades inventadas está me parecendo muito mais interessante e divertido. Já não sei mais se quero me compreender. Parece-me, pensando aqui e agora, que sentir deve ultrapassar qualquer entendimento. Quer saber? Darei-me alta.

Meu enredo. Minha história.

Eu.

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Obrigada a todos que contribuíram com essa postagem. A seguir, alguns traumas de amigos que me curaram, ou seja, mudaram o final desse texto:

Quando eu fiz porquinhos de maxixe e palito de dente e guardei pra brincar outro dia, e quando eu peguei de novo estava cheio de larva e ainda tive que limpar! – Robson Fonseca

Quando meu pai se cortava ao se barbear, dizia pra mim que os morcegos tinham atacado ele. Quando ele me viu pegando numa bolinha de naftalina na gaveta disse que eu ia virar uma barata. – Marcela Garcês.

Eu fui ao jardim zoológico e cismei que queria levar o elefante pra casa. Meu pai explicou que era muito grande e eu respondi que queria só o filhote. – Alessandra Rosa Santos

Quando mais nova jurava que era adotada, porque minha irmã mais velha tem inúmeros álbuns fotográficos quando bebê, e eu por ter nascido com a intolerância a lactose, era muito pequena e magrinha, minha mãe falava que eu parecia um ratinho, e por isso não tirava fotos minhas.. E pra completar minha irmã sabia disso, ainda colocava mais pilha dizendo que eu tinha dido achada na lata do lixo… Chorava horrores… – Maiana Lila

Pedi uma bicicleta ao Papai Noel e recebi um kit “O pequeno barbeiro” com tesoura, navalha, pente e máquina de cortar cabelos, tudo de plástico!!!! Foi phoda!!! Com “ph” mesmo, porque é daquelas antigas!!! – Jackson Brito

Andar de bicicleta com meu pai numa estrada no interior de SP onde de um lado tinha uma plantação de cana de açúcar e do outro um plantação de eucalipto. Ele disse que “ia lá frente e voltava”, só que o lá na frente era muito longe e ele sumiu da linha de visão. Larguei a bicicleta e saí correndo chorando em direção ao horizonte achando que tinha sido abandonado até que finalmente consegui ver ele voltando. – Marcos Matheus

Me perdi com 6 anos no carnaval de cabo frio e quando olho pra cima, eu era um baby, me deparo com um Pânico do meu lado e um Clóvis do outro. Não fico perto de nada fantasiado até hoje. Sério, fui no parque da Mônica aos 10 e to com cara de pastel de flango ao lado dos personagens em pessoas fantasiadas – Caroline do Valle

Pisei num formigueiro quando tentava pegar uma florzinha pra minha mãe. – Vitórya Rebelo

Já fui esquecido na escola quando tinha sete anos rsrsrs desde lá implorei para meus pais para que eu voltasse sozinho para casa rsrss eu via os meus coleguinhas indo embora e eu sempre era o último a ir embora rsrs – Pedro Eustáquio

Mesmo dentro da casa, no sítio, presenciei árvores sendo arrancadas pela raiz, telhas brancas(aquelas compridooonas) e vermelhas voando por ai, agua entrando pela janela fechada… Tudo isso numa tempestade siniiiiiistra, digna de filme hollywoodiano huahauah – Pedro Eiras

Minhas festas de aniversário eram sempre do tema do papai noel… Nasci 24 de dezembro rs E na verdade descobri que nunca foram festas… Eram ceia de natal com bolo – Euler Chavari

O dia q escolhi você pra voltar de canoa e nossa canoa virou – Lydiane Takimoto

Trauma de me perder da minha mãe no shopping. Me perdi uma vez e fiquei desesperada. O pior de tudo. Eu não sabia falar direito. E o cara da segurança não entendia o nome da minha mãe. – Catharina Gonçalves

Quando eu era pequena gostava de me esconder da minha mãe em lojas de roupa. Entrava em td q era buraco.. Um dia estava escondida nas lojas americanas embaixo de uma pilha de roupas, de repente um funcionário da loja tentou me segurar, levei um susto e corri na direção de uma pilha de copos de vidro, quebrei todos. Nunca mais me escondi. – Renata Nunes Moreira.

Quando eu tinha 9 anos, eu raspei a cabeça, e estudava numa escola pequena, com as mesmas pessoas desde o maternal, nós eramos 18. Um dia, era aniversario de um colega da sala que morava ali do lado, e a mãe dele alugou duas kombis para levar todo mundo pro play do prédio dele. Claro que todos queriam trocar de roupa, então os meninos se trocaram rapidamente na sala de aula e as meninas foram pro banheiro, quando todas nós terminamos, fomos pra sala, e meio que se formou uma fila na porta: a medida que cada menina entrava ( desfilando, diga-se de passagem), os meninos assobiavam, gritavam, batiam palma, e eu era uma das últimas, quando chegou minha vez…. o silêncio era tamanho que só dava pra ouvir meus passos. rs ahahhahahahah – Mikhaila Copello

Eu gostava muito de morango, meu primo Maycon resolveu então fazer uma pegadinha comigo. No quintal a gente tinha uma plantação de pimenta, ele falou pra mim que era morango… Foi pimenta na boca, no olho, na mão, nariz , enfim, foi muita pimenta. Passei o dia assistindo tv e passando gelo, bebendo água e com a cara no ventilador. Demorei um pouco pra comer pimenta futuramente, como é de se imaginar. – Julia Dantas

Eu queria um cachorrinho, ganhei três irmãos.- Marcella Alecrim

Minha mãe comprava muito biscoito da vaquinha pra gente. Ela achava que era a coisa no mundo que mais gostávamos. Resultado: não suporto nem o cheiro desse biscoito.- Ayrton Machado

Quando Michael Jackson morreu e suas músicas viraram febre, a Nara era uma das viciadas que ficava horas no computador me mostrando vídeos dele. Eu achava um saco, mas assistia o que ela queria. Meus pais nos viram assistindo e acharam que eu gostava tanto quanto ela, então ganhei um CD do michael Jackson no meu aniversário de 10 anos. – Izumi Takimoto

Eu odiava cantar parabéns nas minhas festas de aniversário. Pra mim significava o “fim”. Dai a partir dos 9, 10 anos, perto do parabens eu chorava ahahahaha – Mariana Martins

Quando eu era pequeno eu estava no carro com a minha mãe e um caminhão bateu na gente (isso foi numa estrada da região dos Lagos), e eu só queria saber de segurar o bendito chiclete que estava na minha mão, que eu tinha prometido que ia entregar pra minha prima. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Outro trauma: eu era muito gordo. – Aron Costa

Tomar biotonico fontoura com gema de ovo de pata.- Soraia Azevedo

Quando eu pedia brinquedo no shopping, minha mãe dizia que não tinha dinheiro. Ai eu insistia porque ela tinha cartão e cheque (eu não entendia né) ai ela falava que tinha que cortar um pedaço do braço pra vender e ter dinheiro pra comprar o brinquedo. Fiquei traumatizada! – Luiza Maria

Hoje eu acho que eu era uma criança esquisita, eu detestava sair fantasiada. Minha mãe, ao contrário, amava, achava lindo. Todo ano era a mesma coisa, eu colocava as fantasias de Índia, baiana, havaiana e íamos ao Tivoli Park no carnaval. Não sei se realmente as demais crianças não iam fantasiadas ou se era delírio somente da minha mente envergonhada, mas eu não me lembro de nenhuma criança nesta situação além do meu irmão. Esse foi um grande trauma, junto com ficar em pé em uma cadeira para soprar velinha do bolo de aniversário. Maior vergonha… – Elaine Falcão

Meu pai prometeu me levar na Disney a vida inteira… Aqui estou, sem nem passaporte. – Kayan Albertin

No meu natal dos 3 anos, fiz um acordo com o “papai Noel” de que trocaria minha chupeta pelo presente. Como eu já havia passado a perna no “coelhinho da Páscoa” achei que pudesse enganar o Papai Noel tbm, mas não. No dia seguinte eu acordei com o presente, mas sem a chupeta. Passei o natal todo chorando e não quis abrir a boneca que eu tinha pedido. Odiei ela por toda a minha vida e nunca brinquei com ela, rs. – Luíza Coeli

Uma vez eu estava no telefone com a garota que eu queria namorar. Minha mãe pegou o telefone lá de baixo e entrou na conversa. Foi uma coisa bem traumatizante nos meus 15 anos. – Hideo Takimoto

Ter feito cocô na calça qd ainda usava fraldas. Eu devia ter uns dois anos.Tatiana Takimoto

Eu Não Bebo e Sou Feliz

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Um jovem  de 23 anos morreu após ingestão excessiva de álcool no último sábado de fevereiro em uma festa. Mais três pessoas até o exato momento seguem internadas em estado grave. Exageros sobre a ingestão de álcool neste caso à parte, a verdade é que há excessos em qualquer festinha que vemos por aí. Não é nada raro vermos amigos bêbados em um costumeiro happy hour.  Não foi somente um jovem que perdeu a vida neste sábado, são vários e todos os dias, principalmente nos finais de semana.

Há tempos já venho observando o comportamento das pessoas em relação ao álcool. Eu que não bebo não porque não goste e sim por não poder, pois não tenho uma enzima que metaboliza o álcool em meu organismo e o resultado de uma xicrinha de cerveja (se é que isso existe) pode ser desastroso, enfim, eu que não bebo porque não posso não sei se pudesse, beberia. Pelo menos não da forma como a sociedade está nos impondo. Vejam bem, na maioria das vezes em que estou com pessoas que não me conhecem seja numa festa ou até mesmo em um bar, eu tenho que me justificar de alguma forma. Falar da aldolase, a tal enzima que me carece e coisa e tal. Você não bebe??? Ela não bebe nada?!? Por que? E me olham com cara de pena como se isso fosse um castigo, uma sentença. Como se isso fosse motivo de sofrimento para mim. Já cheguei a dizer que estava tomando remédio (mentira), que o pastor não deixa (ahahahahaaa), que estou grávida (verdade (na época)), enfim… de alguma forma eu tenho que me explicar e dizer “Calma! Eu não bebo, mas sou legal”. Por que tanta pressão e tanta preocupação com o meu bem estar  quando estou com um copo de suco na mão em uma festa ou sem segurar copo nenhum? Gente, eu estou ótima e me divertindo de verdade…

O projeto de assimilarmos cerveja com felicidade, de fato, foi um sucesso. Todos caíram como uns patinhos. As propagandas sempre associam bebidas com esportes e com total prazer. A sexualidade é associada ao consumo da bebida. Beber se torna, no raciocínio implícito da publicidade, algo fundamental para possuir belas mulheres, grande desejo dos jovens, homens, entre 15 e 25 anos, não por acaso as principais vítimas de acidentes de trânsito no Brasil.

Sexta-feira é o dia da semana em que as redes sociais ficam repletas de fotos de copos de chopp e garrafas de cerveja anunciando o início, promissoriamente leve e festeiro, de um fim de semana. Mas todos sabemos que a realidade não é o que vemos nas postagens no feicebuque. Pesquisas mostram que o número de pessoas viciadas em álcool, os alcoólatras, crescem enormemente. Além disso, o caso de óbitos por cirroses, pancreatites e doenças vasculares crescem na mesma proporção que as indústrias de bebidas enriquecem. E podem colocar nessa conta mortes causadas pelo aumento da violência, da criminalidade e das agressões familiares por conta de pessoas que acharam que estavam consumindo um produto que faria bem à saúde e o tornaria sua vida mais feliz. Bah.

É raro vermos estatísticas falando sobre as mortes citadas acima, não? Por que será? O que há por detrás de tanta omissão? Procurem saber quanto as indústrias de cervejas faturam por ano e quanto gastam em publicidade. E você, bobinho, ainda faz mais propaganda de graça fotografando a cerveja que vai beber juntamente com seu sorriso esperançoso de que terá momentos leves. Que tenha, mas… até que ponto o álcool  e a quantidade que é ingerida  são, de fato, necessários para a sua felicidade? E você que faz questão de ser fotografado com um copo de cerveja na mão: o líquido que você bebe é ingerido pelo que tem em seu conteúdo ou pela característica agregada pelo efeito persuasivo da publicidade? Considere que ao tirar seu selfie com o copo de cerveja na mão ou algo que o valha, o sentido de “ter”, para você, passou a substituir o sentido de “ser”. Agora sim você é um alguém socializado e inserido em um grupo social, né? Você precisava ter um copo e beber muito nele para se sentir feliz, não? Uma pergunta que faço quando vejo pessoas sendo fotografadas bebendo: Quem, de fato, está muito feliz com a sua foto?

É claro que você pode estar sim muito alegre e contente e a cerveja não ser a principal causa disso. Mas em muitos casos, a impressão que se é passada, para mim, não é exatamente essa. Eu, vejam vocês, quase sinto vergonha por não beber. Quase… Já me acostumei com as indagações, mas sinto-me cada vez mais anormal tanto no meio de adultos como no meio da garotada mesmo. E não é de se estranhar a minha sensação.. Há nesse mundo uma apologia à bebida que vou te contar viu. Muitos para mostrar que uma festa bombou tiram fotos rodeados de latinhas vazias ou cheias. Associam o fato de um evento ter sido bom somente se todos se encharcarem de bebidas alcoólicas. Bebi bagarai!!!! Quem nunca ouviu isso? Afff…

Jovens estão consumindo bebidas alcóolicas cada vez mais cedo e em quantidades cada vez maiores. A busca pela felicidade começa desde cedo, agora vejam. E os mais novos sempre imitaram os adultos desde que o mundo é mundo. Já foi assim com o tabaco e agora, mais do que nunca, com o álcool, a droga permitida e institucionalizada. “Aprecie com moderação” é o suficiente para sermos massificados com essa quantidade absurda e criminosa de publicidade. As propagandas  têm um efeito crucial nesse imaginário de que o álcool não é droga e que por ser lícita não prejudica a vida, pelo contrário traz benefícios, felicidades… a vida vira uma festa se houver cerveja! É essa visão que grande parte dos adultos e jovens brasileiros têm das bebidas alcoólicas. Bobinhos…

É urgente e impositivo que sejam extinguidas as propagandas de bebidas alcoólicas no país, como foi feito com o cigarro já que ambas matam, sendo o álcool um grande vilão que apenas é respeitado por conta da ignorância e hipocrisia da sociedade que não enxerga a quantidade de mortes e doenças que o álcool vem gerando, pela cultura “social” que afirmam que tem.  Não digo que se deva proibir, mas há de se gerar na sociedade uma consciência maior, mais responsável e menos alienada sobre o consumo de álcool assim como foi feito com o do cigarro. Não poderiam, por exemplo, colocar as imagens de acidentes de trânsito nos rótulos das cervejas? Fotos de fígados saudáveis versus os com cirrose?

Em verdade, em verdade eu vos digo. É possível aproveitar a vida, uma festa, se socializar, ter amigos e ser feliz sem a necessidade de ter um copo na mão. Vide a mim e as criancinhas! Eu me divirto a vera e a brinca em qualquer lugar de cara limpa. E sou legal, ok? Feliz nem sempre mas, vale lembrar, o normal é ser assim mesmo.